1.Ficar sempre atento à programação midiática gospel dos meios de comunicação, a fim de não faltar aos shows e congressos de avivamentos “inspirituais” programados em seu Estado. Se possível freqüente essas seções diariamente. Quanto ao estudo da Palavra, basta apenas aquela horinha na escola bíblica dominical.
2.Não quebre a cabeça com estudos bíblicos demasiados longos, principalmente àqueles que exigem uma infinidade de obras para consultar, como livros de História, de Geografia, de Filosofia Cristã, de Teologia e outras “gias”, além de enciclopédias e dicionários. Nas livrarias gospel você já encontra tudo mastigadinho para o seu crescimento espiritual, sem necessidade de forçar a mente. Lá você pode adquirir pacotes de “pague 3 e leve 4”.
3.Se tiver que decidir entre um “show de avivamento” e uma reunião de estudo bíblico, não vacile escolha o primeiro. Afinal, a nossa vida aqui é tão curta, e esse negócio de estudo pode prejudicar a saúde mental, principalmente daqueles que já ultrapassaram os 45 anos.. Veja e compare: aqueles que saem dos retetés de avivamento apresentam-se alegres e de faces radiantes, enquanto aqueles que saem do estudo das Escrituras Sagradas apresentam-se cabisbaixos, apáticos e com cenhos franzidos, como se tivessem acabado de assistir a uma sessão de tortura.
4.Nos grandes congressos e festas gospel use ao máximo, o som esfuziante das bandas de forró, axé e frevo. Não deixe a multidão “paradona”. Incentive as palmas, os gritos dos bordões evangeliquês, os pula-pulas, os cai-cai, etc.
5.Se você é o preletor oficial, nunca deixe de suar a camisa, e se possível o paletó. Nunca deixe de imprimir aquele vozeirão dramático e tonitruante. Se a platéia se mostrar fria, exerça os seus dons teatrais, como pulos, cambalhotas, sapateados e lançamentos de bíblias ou lenços, que você tão bem ensaiou.
6.Não deixe de comprar em nossas livrarias, os famosos livros de marketing sobre pregações para multidões, como os recentemente publicados: “Como Inflamar as Multidões” ─ de Flamarion Nazareno; e o best-seller: "Cem Conselhos para Incendiar as Igrejas"─ de Pinto Sette e Caio Botafogo.
7.Os organizadores dos shows de avivamento gospel, não podem em hipótese alguma, reservar muito tempo para a exposição da Palavra de Deus. Os sermões longos causam enfado e deixam as multidões sonolentas.
8. É patente e notório que, se você quiser ganhar um maior número de almas para seu rebanho, deverá pregar mais sobre Apocalipse, enfatizando com cores fortes, o terror do fim do mundo e do inferno. As pessoas temem muito o castigo final, e consequentemente, vão procurar ligeirinho, uma igreja para se congregar.
9. Não esqueça o que preconiza o marketing da “Hora do Apelo”. O mesmo deve ser executado com muito esmero. Intensa e solene dramatização, ao som de “corinhos” e de uma suave e crescente pressão dos auxiliares junto ao assustado pecador, para que “livremente”, ele se dirija ao púlpito, a fim de ser contabilizado para a honra e glória do pregador.
10.Após o término dos shows, todos deverão procurar as nossas barracas de cds, vídeos, camisetas, revistas, sandálias, toalhas, pratos, chaveiros, bolsas e bonés com versículos bíblicos e emblemas judaico-cristãos, a fim de adquirir um ou mais objetos para se guardar como recordação. OBSERVAÇÃO: levem sempre algum dinheiro na carteira, pois não aceitamos cheques ou cartões de crédito.
Por: Levi B. Santos
Guarabira,06 de março de 2009
fonte: http://levibronze.blogspot.com/2009/03/dez-regras-praticas-do-avivamento.html
18 de abril de 2009
USOS E COSTUMES ASSEMBLEIANOS: "CURIOSIDADES"

Em seu livro "A Igreja, o país e o mundo: desafios a uma fé engajada", o Bispo Anglicano Robson Cavalcanti, ao falar sobre questões culturais, e de forma mais específica, sobre a maneira das mulheres "Assembleianas" se vestirem, nos diz o seguinte:
"Por que as mulheres da Assembleia de Deus no Brasil se vestem assim, quando em outros países do mundo, até mesmo da América Latina, não o fazem? É um costume da Assembleia de Deus no Brasil. Aí, você vai descobrir que essa denominação não começa no sul, mas no norte e no Nordeste, na zona rural. Converteram-se pessoas que vinha da Igreja Católica, da religião popular. E quem viveu no interior do Nordeste, nos anos de 40-60, percebe que a beata católica tinha como características não se pintar, usar cabelos longos presos e roupas longas. Tal costume, então, dessa denominação é, na verdade, uma absorção da cultura católica popular, que depois se tornou doutrina." (CAVALCANTI, p. 145, 2000)
Penso que a questão não se limita apenas ao que foi colocado acima, mas também, ao processo de "conversão à cultura dos missionários".
No ano de 1946, o missionário sueco Otto Nelson (1891-1982), então presidente da Assembléia de Deus em São Cristovão, Rio de Janeiro, em sessão ordinária, deliberou o seguinte:
"1) Não será permitido a nenhuma irmã membro desta igreja raspar sobrancelhas, cabelo solto, cortado, tingido, permanente ou outras extravagâncias de penteado, conforme usa o mundo, mas que se penteiem simplesmente como convém às que professam a Cristo como Salvador e Rei.
2) Os vestidos devem ser suficientemente compridos para cobrir o corpo com todo pudor e modéstia, sem decotes exagerados e as mangas devem ser compridas.
3) Se recomenda às irmãs que usem meias, especialmente as esposas dos pastores, anciãos, diáconos, professoras de Escola dominical, e dos que cantam no coro ou tocam.
4) Esta resolução regerá também toda as congregações desta igreja.
5) As irmãs que não obedecerem ao que acima foi exposto serão desligadas da comunhão por um período de três meses. Terminando o prazo, e não havendo obedecido à resolução da igreja, serão cortadas definitivamente por pecado de rebelião.
6) Nenhuma irmã será aceita em comunhão se não obedecer a estas regras de boa moral, separação do mundo e um vida santa com Jesus. Estamos certos de que todas as irmãs que amam ao Senhor Jesus cumprirão, com gozo, o que foi resolvido pela igreja.
O Ministério"
(Fonte: Daniel, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. p. 219)
A resolução acima foi publicada no Mensageiro da Paz, gerando uma polêmica que culminou numa retratação, publicada na edição da 2ª quinzena de janeiro de 1947 do já citado jornal:
"AVISO
O Ministério da Assembléia de Deus no Rio de Janeiro deseja fazer público que, de acordo com a igreja, retira as regras publicadas no Mensageiro da Paz da 1ª quinzena de julho, estabelecidas para as irmãs membros da igreja, pois sem elas as irmãs obedecem a Palavra de Deus (grifo nosso).
O Ministério"
(Fonte: idem, p. 222)
O missionário Otto Nelson (foto) trabalhou também nos Estados de Alagoas (1915-1930) e Bahia (1930-1936). "Por outro lado, apesar de as resoluções de São Cristovão terem sido atribuídas ao presbitério da igreja, sabe-se que Gunnar Vingren e Otto Nelson foram os missionários suecos mais rígidos em termos de vestimentas" (Ibdem, p. 220)
Diante de todas as questões que envolvem usos e costumes, a imposição de regras nos termos aqui expostos, não é o melhor caminho. Prefiro a promoção de uma tomada de consciência quanto ao bom senso e ao pudor, fundamentados nos princípios espirituais, éticos e morais da Santa Palavra de Deus.
fonte: http://www.altairgermano.com/2009/04/usos-e-costumes-assembleianos.html
16 de abril de 2009
PORQUE EU ODEIO A RELIGIÃO!!!

Texto de meu Brother Bruno, um estudioso da Palavra e agora pelo visto está se tornando um Pensador, espero e torço para que não o podem, como é usual acontecer, pois o considero uma mente brilhante!!!
Diante da realidade que vivemos hoje, digo concernente à religião, senti a nescessidade de postar algo de minha autoria em meu blog no que diz respeito ao contexto religioso no qual muitos de nós estamos inseridos. Quem vive próximo a mim, pode afirmar com clareza qual é minha posição diante de algumas atitudes que tem sido tomadas por entidades ditas representantes de Cristo ne terra, mas de fato se formos prová-las pelas Escrituras, veremos que tais atitudes são respaldadas unicamente pelas rasuras existentes dentro do coração corrompido do homem que diz ser seguidor de Jesus! A principio antes de explicar porque eu odeio a religião quero me esconder atrás da Cruz de Cristo, afirmando que o nosso mestre também a odiou!! Afinal qual de nós nunca ficou estupefato com as palavras de Jesus aos Religiosos de sua época chamando-os de hipócritas, sepulcros caiados e Serpentes. E o que dizer de seu precurssor João Batista?....como veementemente "ofendeu-os" chamando-os de raça de víboras, pois acreditavam que sua religiosidade os faria escapar da condenação eterna!(qualquer semelhança com sua igreja é mera coincidência!!)Portanto a Religião esta se tornando uma das instituiçoes que mais afasta o homem de Deus!!....acredite você ou não.
A palavra religião vem do latim religare que por inferência quer dizer que a mesma é quem religa o homem a Deus, mas biblicamente sabemos que o unico mediador entre Deus o os homens é Cristo verdadeiro o homem, verdadeiro Deus!...o resto pode até suplantar, mas na verdade acaba separando o homem de seu Criador!
Pois bem, apartir de agora colocarei aqui minhas motivações que me fazem odiar o sistema religioso atual...e por favor...nao se escandalize, pois se isso acontece com você é porque é um deles também!!
- o primeiro motivo pelo qual odeio a religião (acredito ser esse o que mais me deixa irado!!!) está no fato de a mesma anular a graça de Deus. Quando digo anular não estou dizendo que a graça de Deus se torna ineficaz no sistema religioso, mas que é isso que é pregado pelos defensores da religião, pois se fala de uma teologia totalmente subsidiada pelas obras. Ora, não foi isso que Cristo repudiou contudentemente em seu ministério terreno? A religião ensina que somente os que praticam certas obras herdarão o reino dos céus, e o interessante disso é que os religiosos pregam essa teologia mas eles mesmos não cumprem seus mandamentos, pelo menos foi isso que Jesus disse! Fecham a porta dos céus na cara dos eleitos, fazem prosélitos e os tornam duas vezes mais filhos do inferno do que eles mesmos! Todos nós sabemos que Cristo não veio para esses ditos "sãos" mas justamente para os fracos e doentes, aqueles que reconhecem sua incapacidade de se salvar, e de cumprir a risca os mandamentos, digo os divinos! Se voce leitor tem sido vilipendiado por lideres ou até mesmo membros leigos, religiosos, e sente-se o menor dos homens da terra, saiba de uma coisa, Cristo te ama e não é a pratica de certas ordenanças, como usos de certas roupas, o seu dizimo, a sua presença em certas reuniões, ou obediência incondicional aos lideres que o fará agradar a Cristo, mas sim sua fé e dependência de segurança no Senhor. Enquanto a Religião ensina que para se salvar é nescessário certas obras, a graça ensina que as obras não existem para nos salvar, mas por sermos salvos praticamos boas obras...estou falando de boas obras e não mandamentos humanos sem fundamento biblico algum!
- O segundo motivo pelo qual odeio a religião esta no fato de a mesma ser altamente exclusivista, ou seja, ela existe para definir padrões para o homem, e se alguem por fraqueza nao conseguir cumprir tais mandamentos, pode considerar-se "fora", "disciplinado", "excluido" etc, etc e tal.....dizem que pedoam, mas após o perdão ainda é nescessário ficar um tempo fora....na verdade (entendam como ironia por favor!) foi bem isso que Jesus fez!....perdoava e depois discplinava!( eita palhaçada!!!)
- O terceiro motivo é que a religião existe para os sãos, diferente da graça que se manifestou em Cristo para os "doentes". Cansei-me de ouvir pastores chamar determinadas ovelhas de seu pasto (isso com um sentido exacerbadamente pejorativo)de "doentes", tais lideres se esquecem que foi justamente para os tais que Cristo se revelou, para os doentes! Alguns lideres se acham no direito de definir quem sãos as ovelhas e quem são os "bodes", acham que de uma forma misteriosa podem detectar quem é o trigo e quem é o joio, e ainda que saibam, os tais se esquecem que Jesus disse que o joio nao deve ser tocado, para que juntamente com ele o trigo nao seja também destruido, esse papel de mandar pessoas embora, nunca pertenceu a nós meros pecadores, porque todos estamos no mesmo nivel diante do Criador, tu que dizes que nao peca poderia afirmar o mesmo diante de Cristo?....somos todos fracos em carne e todos dependentes da graça...e governar sobre os sãos é facil, quero ver governar sobre os fracos e doentes..pois foi para esses que Jesus veio!
- Quarto!!(nao fique bravo comigo por favor...afinal este é meu pulpito!)Odeio a religião porque ela subsiste de atitudes externas e nao internas, subsistem entre eles aqueles que são mais hipócritas, que aparentam nunca errar, pois para condenar como condenam, para disciplinar como disciplinam acredito que nao devem cometer erros, pois nunca pedem perdão!! Os lideres mensuram os mais espirituais e os mais fiéis com os critérios mais absurdos e antibiblicos que possam existir, tais são eles: dizimo, presença em cultos, estilo de roupa (ternos, gravatas, saias etc..)obediência incondicional ao ministério, dons espirituais e as vezes até condição finenceira!!....sabemos que o homem pode ir para o inferno com todos esse critérios supra citados!....Logo os mais "crentes" são os que diante dos olhos do pastor aparentam ser mais espirituais! Não dando trabalho pro pastor, e tendo cara de Crente, já ta bom!...nao importa se nasceu de novo ou não!
- Quinto motivo...odeio a religião porque ela não pemite que seus seguidores tenham nehum tipo de opinião contraria aos principios estabelecidos, não podem ser questionados (parecem que tem medo de algo..que será?) se alguem questionar é o "rebelde da história". O que me deixa irritado é que muitas dessas instituiçoes religiosas são seguidoras (ou pelo menos dizem ser) do grande reformador Lutero...ei amigos!....somos protestantes ou não?..uns se dizem protestantes, mas se protestarem tem sua cabeça cortada! Falamos tanto da igreja Católica, mas a unica diferença entre nós e eles tem sido os Santos..ja percebeu?....pois também temos os santos sacerdotes e o santo ministério..que não podem ser questionados (alguém ai já ouviu falar da infalibilidade do papa?...pois bem qualquer semelhança é mera coincidência)
Bom acho melhor eu parar por aqui..se não os religiosos vão ficar bravos comigo e vão me excluir..mas esse são alguns dentre os vários motivos pelo qual eu odeio a religião e amo unicamente a Cristo meu salvador.....e por favor...se sinta seguro em Cristo mesmo que tenha falhado em cumprir mandamentos humanos, pois você é salvo pela fé e não por obras (por favor religioso hipócrita nao fica bravo comigo tá?)e muito menos por cumprir mandamentos humanos falíveis.
Soli Deo Gloria
Bruno Domingues
Obstáculos para Vir a Cristo
por Arthur W. Pink
“Ninguém pode vir a mim” (João 6.44).
Ohomem natural é incapaz de “vir a Cristo”. Citemos João 6:44, “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer.” A razão pela qual “duro é esse discurso”, até mesmo para milhares que professam ser cristãos, é que eles fracassam completamente em compreender o terrível estrago que a queda provocou; e, o que é pior, eles mesmos não se dão contam da “chaga” que existe nos seus próprios corações (1 Rs. 8:38). Certamente se o Espírito já os tivesse despertado do sono da morte espiritual, e lhes dado ver alguma coisa do pavoroso estado em que estão por natureza, e feito sentir que suas “mentes carnais” são “inimizade contra Deus” (Rm. 8:7), então eles não mais discordariam dessa solene palavra de Cristo. Mas aquele que está espiritualmente morto não pode ver nem sentir espiritualmente.
Onde reside a total incapacidade do homem natural? Ela não está na falta das faculdades necessárias. Isso tem de ser bastante enfatizado, do contrário o homem caído deixaria de ser uma criatura responsável. Mesmo que os efeitos da queda tenham sido terríveis, eles não privaram o homem de nenhuma das faculdades que Deus originalmente lhe concedeu. É verdade que o pecado tirou do homem a capacidade de utilizar essas faculdades corretamente, ou seja, empregá-las para a glória do Criador. Entretanto, o homem caído possui ainda a mesma natureza, corpo, alma e espírito, que tinha antes da Queda. Nenhuma parte do ser do homem foi aniquilada, ainda que cada uma tenha sido contaminada e corrompida pelo pecado. De fato, o homem morreu espiritualmente, mas a morte não é a extinção do ser (aniquilação) - morte espiritual é a alienação de Deus (Ef. 4:18). Aquele que é espiritualmente morto está bem vivo e ativo no serviço de Satanás.
A incapacidade do homem caído (não regenerado) de vir a Cristo não reside em nenhum defeito físico ou mental. Ele tem o mesmo pé para levá-lo tanto a um local onde o Evangelho é pregado, como para caminhar até um bar. Ele possui os mesmos olhos que podem lhe servir para ler tanto as Escrituras Sagradas como os jornais. Ele tem os mesmos lábios e voz para clamar a Deus os quais usa agora em conversas fiadas e em canções ridículas. Assim, também, possui as mesmas faculdades mentais para ponderar sobre as coisas de Deus e sobre a eternidade, as quais ele utiliza tão diligentemente nos seus negócios. É por causa disso que o homem é “indesculpável”. É o mau uso das faculdades que o Criador lhe concedeu que aumenta a sua culpa. Que cada servo de Deus veja que essas coisas pesam constantemente sobre os seus ouvintes não convertidos.
1) A incapacidade do homem está na sua natureza corrompida.
Nós temos de ir bem mais a fundo se quisermos encontrar a fonte da incapacidade do homem. Devido à queda de Adão, e por causa do nosso próprio pecado, a nossa natureza se tornou tão corrompida e depravada que é impossível para qualquer homem “vir a Cristo”, amá-lO e serví-lO, estimá-lO mais que tudo neste mundo e submeter-se a Ele, até que o Espírito de Deus o regenere e implante nele uma nova natureza. A fonte amarga não pode jorrar água doce, nem a árvore má produzir bons frutos. Deixe-me tentar explicar isso melhor através de uma ilustração. É da natureza de um abutre alimentar-se de carniça; no entanto, ele tem os mesmos órgãos e membros que lhe permitiriam comer grãos, como fazem as galinhas, mas ele não possui nem a disposição nem o apetite para tal alimento. É da natureza da porca o chafurdar na lama; e apesar dela possuir pernas como a ovelha para levá-la à campina, lhe falta entretanto o desejo por pastos verdejantes. Assim acontece com o homem não-regenerado. Ele tem as mesmas faculdades físicas e mentais que o homem regenerado possui para empregar no serviço e nas coisas de Deus, mas não tem amor por elas.
“Adão… gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem” (Gn. 5:3). Que terrível contraste há aqui com o que lemos dois versículos antes: “… Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez”. No intervalo entre esses dois versos, o homem caiu, e um pai caído pode gerar somente um filho caído, transmitindo-lhe a sua própria depravação. “Quem da imundícia poderá tirar coisa pura? (Jó 14:4). Por isso nós encontramos o salmista de Israel declarando, “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl. 51:5). No entanto, apesar de por natureza Davi ser um monte de iniquidade e pecado (como também somos nós), mas tarde a graça fez dele o homem segundo o coração de Deus. Desde que idade essa corrupção da natureza aparece nas crianças? “Até a criança se dá a conhecer pelas suas obras” (Pv. 20:11). A corrupção do seu coração logo se manifesta: orgulho, vontade própria, vaidade, mentira, aversão ao que é bom, são frutos amargos que cedo brotam no novo, mas corrupto, ramo.
2) A incapacidade do homem está na completa escuridão em que se encontra o seu intelecto.
Essa importante faculdade da alma foi destituída da sua glória original, e coberta de confusão. Tanto a mente como a consciência estão corrompidas: “Não há quem entenda”(Rm. 3:11). O apóstolo solenemente lembra os santos, “Pois outrora éreis trevas” (Ef. 5:8), não somente estavam “em trevas”, mas eram as própria “trevas”. O pecado fechou as janelas da alma e a escuridão se estende por todo o lugar: ela é a região das trevas e da sombra da morte, onde a luz é como a escuridão. Lá reina o príncipe das trevas, onde não se pratica nada além das obras das trevas. Nós nascemos espiritualmente cegos, e não podemos ter essa visão restaurada sem um milagre da graça. Esse é o seu caso quem quer que você seja, se ainda não nasceu de novo” (Thomas Boston, 1680). “São filhos sábios para o mal, e não sabem fazer o bem” (Jr. 4:22).
“O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar”(Rm. 8:7). Existe no homem não regenerado uma oposição e aversão pelas coisas espirituais. Deus revelou a Sua vontade aos pecadores no tocante ao caminho da salvação, contudo eles não trilharão esse caminho. Eles sabem que somente Cristo é capaz de salvá-los, no entanto eles recusam se separar das coisas que obstruem o seu caminho até a Ele. Eles ouvem que é o pecado que mata a alma, no entanto o afagam em seu peito. Eles não dão ouvidos às ameaças de Deus. Os homens acreditam que o fogo há de consumir-lhes, e estão em grande tormento para evitá-lo; contudo, mostram com suas ações que consideram as chamas eternas como se fossem um mero espantalho. O mandamento divino é “santo, justo e bom”, mas o homem o odeia, e só o observa enquanto a sua respeitabilidade é promovida entre os homens.
3) A incapacidade do homem está na corrupção dos seus sentimentos.
“O homem, no estado em que se encontra, antes de receber a graça de Deus, ama tudo e qualquer coisa que não seja espiritual. Se você quiser uma prova disso, olhe ao seu redor. Não há necessidade de nenhum monumento à depravação dos sentimentos humanos. Olhe por toda parte. Não há uma rua, uma casa, e não somente isso, nenhum coração, que não possua uma triste evidência dessa terrível verdade. Por que no Dia do Senhor o homem não é encontrado congregando-se na casa de Deus? Por que não nos achamos mais freqüentemente lendo nossas Bíblias? O que acontece para a oração ser um dever quase que totalmente negligenciado? Por que Jesus Cristo é tão pouco amado? Por que até mesmo os seus seguidores professos são tão frios em seus sentimentos para com Ele? De onde procedem essas coisas? Seguramente, caros irmãos, nós não podemos creditá-las a outra fonte que não a corrupção e a perversão dos sentimentos. Nós amamos o que deveríamos odiar, e odiamos o que deveríamos amar. Não é outra coisa senão a natureza humana caída que nos faz amar esta vida mais do que a vida por vir. É um efeito da Queda o fato do homem amar o pecado mais que a justiça, e os caminhos do mundo mais que os caminhos de Deus”. (Sermão de C.H. Spurgeon em Jo. 6:44).
Os sentimentos do homem não regenerado são totalmente depravados e desordenados. “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jr. 17:9). O Senhor Jesus afirmou solenemente que os sentimentos do homem caído (não regenerado) são a fonte de toda abominação: “Porque de dentro do coração do homem, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, a malícia, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura” (Mc. 7:21,22). Os sentimentos do homem natural estão miseravelmente deformados, ele é um monstro espiritual. O seu coração se encontra onde deveriam estar os seus pés, seguro ao chão; seus calcanhares estão levantados contra os Céus, para onde deveria estar posto o seu coração (At. 9:5). Sua face está voltada para o inferno; por isso Deus o chama para converter-se. Ele se alegra com o que deveria entristecê-lo, e se entristece com o que deveria alegrá-lo; se gloria com a vergonha, e se envergonha da sua glória; abomina o que deveria desejar, e deseja o que deveria abominar (Pv. 2:13-15) (extraído do Boston’s Fourfold State).
4) Sua incapacidade está na total perversão da sua vontade.
“O homem pode ser salvo se ele quiser”, diz o arminiano. Nós lhe respondemos, “Meu caro senhor, nós todos cremos nisso; mas essa é que é a dificuldade - se ele quiser.” Nós afirmamos que nenhum homem deseja vir a Cristo por sua própria vontade; não, não somos nós que o dizemos, mas Cristo mesmo declara: “Contudo não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo. 5:40); e enquanto esse “não quereis vir” estiver registrado nas Escrituras nós não podemos ser levados a crer em nenhuma doutrina do livre arbítrio. “É estranho como as pessoas, quando falam sobre livre arbítrio, falam de coisas das quais nada compreendem. Um diz “Ora, eu creio que o homem pode ser salvo ser ele quiser”. Mas essa não é toda a questão. O problema é: é o homem naturalmente disposto a se submeter aos termos do Evangelho de Cristo? Afirmamos, com autoridade bíblica, que a vontade humana é tão desesperadamente dada ao engano, tão depravada, e tão inclinada para tudo que é mau, e tão avessa a tudo aquilo que é bom, que sem a poderosa, sobrenatural e irresistível influência do Espírito Santo, nenhum homem nunca será constrangido a buscar a Cristo.” (C.H. Spurgeon).
“Há uma corda de três pontas contra o céu e a santidade, que não é fácil de ser rompida; um homem cego, uma vontade pervertida, e um sentimento desordenado. A mente, inchada pela vaidade, diz que o homem não deve se humilhar; a vontade, inimiga da vontade de Deus, diz: ele não quer; as emoções corrompidas levantando-se contra o Senhor, em defesa da vontade corrompida diz: ele não irá. Assim a pobre criatura permanece irredutível contra Deus, até o dia do Seu poder, quando é feito nova criatura” (Thomas Boston).
Pode ser que alguns leitores sejam inclinados a dizer: “ensinamentos como estes desencorajam pecadores e os levam ao desespero”. Nossa resposta é: Primeiro, eles estão de acordo com a Palavra de Deus! Segundo, esperamos que Ele se agrade em usar essas verdades para levar alguns a desesperarem-se de qualquer ajuda que possam encontrar neles mesmos. Terceiro, esse ensino manifesta a absoluta necessidade da obra do Espírito Santo nessas criaturas depravadas e espiritualmente impotentes, se algum dia vierem salvificamente a Cristo. Então, até que isso seja claramente entendido, o Seu auxílio nunca será realmente buscado.
“Ninguém pode vir a mim” (João 6.44).
Ohomem natural é incapaz de “vir a Cristo”. Citemos João 6:44, “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer.” A razão pela qual “duro é esse discurso”, até mesmo para milhares que professam ser cristãos, é que eles fracassam completamente em compreender o terrível estrago que a queda provocou; e, o que é pior, eles mesmos não se dão contam da “chaga” que existe nos seus próprios corações (1 Rs. 8:38). Certamente se o Espírito já os tivesse despertado do sono da morte espiritual, e lhes dado ver alguma coisa do pavoroso estado em que estão por natureza, e feito sentir que suas “mentes carnais” são “inimizade contra Deus” (Rm. 8:7), então eles não mais discordariam dessa solene palavra de Cristo. Mas aquele que está espiritualmente morto não pode ver nem sentir espiritualmente.
Onde reside a total incapacidade do homem natural? Ela não está na falta das faculdades necessárias. Isso tem de ser bastante enfatizado, do contrário o homem caído deixaria de ser uma criatura responsável. Mesmo que os efeitos da queda tenham sido terríveis, eles não privaram o homem de nenhuma das faculdades que Deus originalmente lhe concedeu. É verdade que o pecado tirou do homem a capacidade de utilizar essas faculdades corretamente, ou seja, empregá-las para a glória do Criador. Entretanto, o homem caído possui ainda a mesma natureza, corpo, alma e espírito, que tinha antes da Queda. Nenhuma parte do ser do homem foi aniquilada, ainda que cada uma tenha sido contaminada e corrompida pelo pecado. De fato, o homem morreu espiritualmente, mas a morte não é a extinção do ser (aniquilação) - morte espiritual é a alienação de Deus (Ef. 4:18). Aquele que é espiritualmente morto está bem vivo e ativo no serviço de Satanás.
A incapacidade do homem caído (não regenerado) de vir a Cristo não reside em nenhum defeito físico ou mental. Ele tem o mesmo pé para levá-lo tanto a um local onde o Evangelho é pregado, como para caminhar até um bar. Ele possui os mesmos olhos que podem lhe servir para ler tanto as Escrituras Sagradas como os jornais. Ele tem os mesmos lábios e voz para clamar a Deus os quais usa agora em conversas fiadas e em canções ridículas. Assim, também, possui as mesmas faculdades mentais para ponderar sobre as coisas de Deus e sobre a eternidade, as quais ele utiliza tão diligentemente nos seus negócios. É por causa disso que o homem é “indesculpável”. É o mau uso das faculdades que o Criador lhe concedeu que aumenta a sua culpa. Que cada servo de Deus veja que essas coisas pesam constantemente sobre os seus ouvintes não convertidos.
1) A incapacidade do homem está na sua natureza corrompida.
Nós temos de ir bem mais a fundo se quisermos encontrar a fonte da incapacidade do homem. Devido à queda de Adão, e por causa do nosso próprio pecado, a nossa natureza se tornou tão corrompida e depravada que é impossível para qualquer homem “vir a Cristo”, amá-lO e serví-lO, estimá-lO mais que tudo neste mundo e submeter-se a Ele, até que o Espírito de Deus o regenere e implante nele uma nova natureza. A fonte amarga não pode jorrar água doce, nem a árvore má produzir bons frutos. Deixe-me tentar explicar isso melhor através de uma ilustração. É da natureza de um abutre alimentar-se de carniça; no entanto, ele tem os mesmos órgãos e membros que lhe permitiriam comer grãos, como fazem as galinhas, mas ele não possui nem a disposição nem o apetite para tal alimento. É da natureza da porca o chafurdar na lama; e apesar dela possuir pernas como a ovelha para levá-la à campina, lhe falta entretanto o desejo por pastos verdejantes. Assim acontece com o homem não-regenerado. Ele tem as mesmas faculdades físicas e mentais que o homem regenerado possui para empregar no serviço e nas coisas de Deus, mas não tem amor por elas.
“Adão… gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem” (Gn. 5:3). Que terrível contraste há aqui com o que lemos dois versículos antes: “… Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez”. No intervalo entre esses dois versos, o homem caiu, e um pai caído pode gerar somente um filho caído, transmitindo-lhe a sua própria depravação. “Quem da imundícia poderá tirar coisa pura? (Jó 14:4). Por isso nós encontramos o salmista de Israel declarando, “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl. 51:5). No entanto, apesar de por natureza Davi ser um monte de iniquidade e pecado (como também somos nós), mas tarde a graça fez dele o homem segundo o coração de Deus. Desde que idade essa corrupção da natureza aparece nas crianças? “Até a criança se dá a conhecer pelas suas obras” (Pv. 20:11). A corrupção do seu coração logo se manifesta: orgulho, vontade própria, vaidade, mentira, aversão ao que é bom, são frutos amargos que cedo brotam no novo, mas corrupto, ramo.
2) A incapacidade do homem está na completa escuridão em que se encontra o seu intelecto.
Essa importante faculdade da alma foi destituída da sua glória original, e coberta de confusão. Tanto a mente como a consciência estão corrompidas: “Não há quem entenda”(Rm. 3:11). O apóstolo solenemente lembra os santos, “Pois outrora éreis trevas” (Ef. 5:8), não somente estavam “em trevas”, mas eram as própria “trevas”. O pecado fechou as janelas da alma e a escuridão se estende por todo o lugar: ela é a região das trevas e da sombra da morte, onde a luz é como a escuridão. Lá reina o príncipe das trevas, onde não se pratica nada além das obras das trevas. Nós nascemos espiritualmente cegos, e não podemos ter essa visão restaurada sem um milagre da graça. Esse é o seu caso quem quer que você seja, se ainda não nasceu de novo” (Thomas Boston, 1680). “São filhos sábios para o mal, e não sabem fazer o bem” (Jr. 4:22).
“O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar”(Rm. 8:7). Existe no homem não regenerado uma oposição e aversão pelas coisas espirituais. Deus revelou a Sua vontade aos pecadores no tocante ao caminho da salvação, contudo eles não trilharão esse caminho. Eles sabem que somente Cristo é capaz de salvá-los, no entanto eles recusam se separar das coisas que obstruem o seu caminho até a Ele. Eles ouvem que é o pecado que mata a alma, no entanto o afagam em seu peito. Eles não dão ouvidos às ameaças de Deus. Os homens acreditam que o fogo há de consumir-lhes, e estão em grande tormento para evitá-lo; contudo, mostram com suas ações que consideram as chamas eternas como se fossem um mero espantalho. O mandamento divino é “santo, justo e bom”, mas o homem o odeia, e só o observa enquanto a sua respeitabilidade é promovida entre os homens.
3) A incapacidade do homem está na corrupção dos seus sentimentos.
“O homem, no estado em que se encontra, antes de receber a graça de Deus, ama tudo e qualquer coisa que não seja espiritual. Se você quiser uma prova disso, olhe ao seu redor. Não há necessidade de nenhum monumento à depravação dos sentimentos humanos. Olhe por toda parte. Não há uma rua, uma casa, e não somente isso, nenhum coração, que não possua uma triste evidência dessa terrível verdade. Por que no Dia do Senhor o homem não é encontrado congregando-se na casa de Deus? Por que não nos achamos mais freqüentemente lendo nossas Bíblias? O que acontece para a oração ser um dever quase que totalmente negligenciado? Por que Jesus Cristo é tão pouco amado? Por que até mesmo os seus seguidores professos são tão frios em seus sentimentos para com Ele? De onde procedem essas coisas? Seguramente, caros irmãos, nós não podemos creditá-las a outra fonte que não a corrupção e a perversão dos sentimentos. Nós amamos o que deveríamos odiar, e odiamos o que deveríamos amar. Não é outra coisa senão a natureza humana caída que nos faz amar esta vida mais do que a vida por vir. É um efeito da Queda o fato do homem amar o pecado mais que a justiça, e os caminhos do mundo mais que os caminhos de Deus”. (Sermão de C.H. Spurgeon em Jo. 6:44).
Os sentimentos do homem não regenerado são totalmente depravados e desordenados. “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jr. 17:9). O Senhor Jesus afirmou solenemente que os sentimentos do homem caído (não regenerado) são a fonte de toda abominação: “Porque de dentro do coração do homem, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, a malícia, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura” (Mc. 7:21,22). Os sentimentos do homem natural estão miseravelmente deformados, ele é um monstro espiritual. O seu coração se encontra onde deveriam estar os seus pés, seguro ao chão; seus calcanhares estão levantados contra os Céus, para onde deveria estar posto o seu coração (At. 9:5). Sua face está voltada para o inferno; por isso Deus o chama para converter-se. Ele se alegra com o que deveria entristecê-lo, e se entristece com o que deveria alegrá-lo; se gloria com a vergonha, e se envergonha da sua glória; abomina o que deveria desejar, e deseja o que deveria abominar (Pv. 2:13-15) (extraído do Boston’s Fourfold State).
4) Sua incapacidade está na total perversão da sua vontade.
“O homem pode ser salvo se ele quiser”, diz o arminiano. Nós lhe respondemos, “Meu caro senhor, nós todos cremos nisso; mas essa é que é a dificuldade - se ele quiser.” Nós afirmamos que nenhum homem deseja vir a Cristo por sua própria vontade; não, não somos nós que o dizemos, mas Cristo mesmo declara: “Contudo não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo. 5:40); e enquanto esse “não quereis vir” estiver registrado nas Escrituras nós não podemos ser levados a crer em nenhuma doutrina do livre arbítrio. “É estranho como as pessoas, quando falam sobre livre arbítrio, falam de coisas das quais nada compreendem. Um diz “Ora, eu creio que o homem pode ser salvo ser ele quiser”. Mas essa não é toda a questão. O problema é: é o homem naturalmente disposto a se submeter aos termos do Evangelho de Cristo? Afirmamos, com autoridade bíblica, que a vontade humana é tão desesperadamente dada ao engano, tão depravada, e tão inclinada para tudo que é mau, e tão avessa a tudo aquilo que é bom, que sem a poderosa, sobrenatural e irresistível influência do Espírito Santo, nenhum homem nunca será constrangido a buscar a Cristo.” (C.H. Spurgeon).
“Há uma corda de três pontas contra o céu e a santidade, que não é fácil de ser rompida; um homem cego, uma vontade pervertida, e um sentimento desordenado. A mente, inchada pela vaidade, diz que o homem não deve se humilhar; a vontade, inimiga da vontade de Deus, diz: ele não quer; as emoções corrompidas levantando-se contra o Senhor, em defesa da vontade corrompida diz: ele não irá. Assim a pobre criatura permanece irredutível contra Deus, até o dia do Seu poder, quando é feito nova criatura” (Thomas Boston).
Pode ser que alguns leitores sejam inclinados a dizer: “ensinamentos como estes desencorajam pecadores e os levam ao desespero”. Nossa resposta é: Primeiro, eles estão de acordo com a Palavra de Deus! Segundo, esperamos que Ele se agrade em usar essas verdades para levar alguns a desesperarem-se de qualquer ajuda que possam encontrar neles mesmos. Terceiro, esse ensino manifesta a absoluta necessidade da obra do Espírito Santo nessas criaturas depravadas e espiritualmente impotentes, se algum dia vierem salvificamente a Cristo. Então, até que isso seja claramente entendido, o Seu auxílio nunca será realmente buscado.
DEUS USA VASOS QUEBRADOS

Nancy Leigh DeMoss
Um dos temas recorrentes das Escrituras é o de que Deus usa pessoas e coisas “quebradas”. Essa é a maneira de ele agir. A reviravolta na vida de Jacó ocorreu numa luta no meio da noite às margens do rio Jaboque (Gn 32). Anos antes, Deus havia prometido abençoar aquele patriarca, mas até então ele nunca fora capaz de desfrutar aquela bênção, porque tentava controlar a própria vida.
Agora, no Jaboque, Jacó chegou a uma situação em que não tinha mais controle. Na manhã seguinte, tinha de se encontrar com seu irmão, que vinha até ele com um exército. Jacó, o suplantador, estava encurralado e aterrorizado. Deus havia despertado sua atenção. Naquela noite o Senhor, na forma de anjo, se encontrou com Jacó. E os dois empreenderam um combate corpo a corpo, enquanto Jacó se esforçava para alcançar a bênção que já lhe pertencia.
A verdadeira vitória aconteceu quando Jacó foi subjugado pelo anjo, e este lhe perguntou seu nome. Naquele momento, imagino que ele se lembrou do dia, anos antes, em que tinha tentado arrancar a bênção de seu pai cego e idoso. Isaque lhe perguntou: “Quem és tu, meu filho?” (Gn 27.18.) Ele o enganou afirmando ser Esaú. O orgulho no coração de Jacó o levou a fingir ser outra pessoa.
Dessa vez, Jacó encontrou alguém à altura. Agora não tinha mais controle das circunstâncias, ficou à mercê de um Ser infinitamente mais forte, e por fim falou a verdade a respeito de quem era:
“Qual o seu nome?”
“Jacó.”
Sem fingimentos, sem tentar causar boa impressão, sem explicações, sem justificativas. Jacó proclamou a pura verdade: “Jacó – o astuto, enganador, manipulador, vigarista. Este sou eu”. Ao aceitar a derrota, Jacó alcançou a vitória definitiva. Daquele momento em diante, tornou-se um novo homem. Tendo Jacó sido quebrantado, Deus pôde revesti-lo com poder. Assim que admitiu a verdade a respeito de quem era, o Senhor lhe deu um novo nome – Israel, que significa “príncipe com Deus” – que representava seu caráter restaurado. Agora ele poderia ser usado.
Como Jacó, Moisés também conheceu o poder do quebrantamento. Após quarenta anos no palácio, fazendo parte da corte de Faraó, foram necessários mais quarenta anos no deserto para que fosse destituído de todas as suas vantagens naturais – habilidades, contatos, posição e reputação. Moisés perdeu tudo. Todavia, voltou da sarça ardente um homem quebrantado, pronto para ser usado por Deus.
Quando os filhos de Israel chegaram ao pé do monte Horebe e não encontraram água potável, Moisés teve outra lição sobre quebrantamento (Êx 17). “Bata na rocha”, disse Deus, “e a água irá brotar”. Todos sabemos que não é possível tirar água de uma pedra. Mesmo assim, em obediência, Moisés feriu a rocha – um símbolo de Cristo sendo açoitado e moído por nós – e a água fluiu para matar a sede de dois milhões de israelitas.
E houve também o líder militar – Gideão – que não tinha qualificação para o cargo. Em número muito menor do que os soldados do exército dos midianitas, o destacamento remanescente de Gideão não tinha nenhuma chance de sobreviver; muito menos de vencer. E como ocorre muitas vezes, o quebrantamento estava nos planos de batalha de Deus. “Divida o exército até sobrarem tão poucos que pareça ridículo tentar lutar. Quebre os jarros para que a luz das tochas brilhe.” Do quebrantamento surge luz, e por ela o inimigo é lançado em confusão e obtém-se a vitória. No fim, todos sabem quem venceu a batalha.
Obviamente nosso maior exemplo é o Senhor Jesus. Quando seu corpo foi moído no Calvário, a vida eterna foi liberada para a salvação do mundo. Você deseja ter uma vida frutuosa? Quer ter a fragrância de Cristo? Deseja exalar o poder de Deus fluindo em sua vida? Quer ser usado como instrumento nas mãos do Senhor? Siga o Salvador até a cruz. Sua morte e ressurreição são um testemunho eterno de que o quebrantamento produz frutos em abundância.
É verdade, Deus usa coisas e pessoas “quebradas”. Em certo sentido, o avivamento é simplesmente o Espírito de Deus fluindo através de vidas quebrantadas. Os registros históricos de avivamentos demonstram isso.
*Este artigo foi extraído do lançamento da Editora Betânia: Quebrantar-se Completamente Diante de Deus, primeiro livro da série Avivamento para o coração.
Via Revista Mensagem da Cruz
QUEM SALVA???
Max Lucado
“O homem é justificado pela fé, independente da obediência à Lei.” (Romanos 3:28)
Se somos salvos pelas boas obras, não precisamos de Deus – lembretes semanais de faça e não faça nos levarão para o céu. Se somos salvos pelo sofrimento, certamente não precisamos de Deus. Tudo o que precisamos é de um chicote e uma corrente e o evangelho da culpa. Se somos salvos pela doutrina, então, pelo amor de Deus, vamos estudar! Nós não precisamos de Deus, nós precisamos de um dicionário.
Mas tenha cuidado, estudante. Porque se somos salvos por ter a doutrina exata, então um erro seria fatal. Isso vale para aqueles que acreditam que somos justificados através de obras. Espero que a tentação nunca seja maior do que a resistência. Se for, uma caída poderia ser um mau agouro. E aqueles que pensam que somos salvos pelo sofrimento, também tomem cuidado, porque vocês nunca sabem quanto sofrimento é necessário.
Levou décadas para Paulo descobrir o que ele escreveu em apenas uma frase: “O homem é justificado pela fé”. Não por obras, sofrimento ou estudo.
“O homem é justificado pela fé, independente da obediência à Lei.” (Romanos 3:28)
Se somos salvos pelas boas obras, não precisamos de Deus – lembretes semanais de faça e não faça nos levarão para o céu. Se somos salvos pelo sofrimento, certamente não precisamos de Deus. Tudo o que precisamos é de um chicote e uma corrente e o evangelho da culpa. Se somos salvos pela doutrina, então, pelo amor de Deus, vamos estudar! Nós não precisamos de Deus, nós precisamos de um dicionário.
Mas tenha cuidado, estudante. Porque se somos salvos por ter a doutrina exata, então um erro seria fatal. Isso vale para aqueles que acreditam que somos justificados através de obras. Espero que a tentação nunca seja maior do que a resistência. Se for, uma caída poderia ser um mau agouro. E aqueles que pensam que somos salvos pelo sofrimento, também tomem cuidado, porque vocês nunca sabem quanto sofrimento é necessário.
Levou décadas para Paulo descobrir o que ele escreveu em apenas uma frase: “O homem é justificado pela fé”. Não por obras, sofrimento ou estudo.
Da "mediunidade" protestante

Robinson Cavalcanti
Quando tive a honra de ser professor do Seminário Presbiteriano do Norte (SPN), no Recife, conheci um aluno que nos dias de semana passava a tarde dormindo ou jogando futebol na quadra, enquanto deveria pregar nas congregações. O mesmo era conhecido por se pretender “espiritual” e “renovado”. Intrigados, procuramos saber se ele não estudava as Escrituras e preparava os sermões com antecedência. O mesmo considerou tal expediente muito “carnal”. Ao dormir a tarde toda ou jogar bola, ele acreditava deixar a mente limpa para o Espírito Santo “baixar” com seu recado, de forma pura e cristalina, logo mais à noite...
Devemos reconhecer a força cultural do espiritismo e dos cultos de origem afro-ameríndia, e como eles influenciaram a percepção de espiritualidade de algumas igrejas protestantes. O Espírito Santo e os anjos funcionam como espécies de “orixás evangélicos”, “baixando” sobre pastores e missionários, qual “médium protestante”. Isso sem falar em “profetas”, principalmente “profetizas”, com suas revelações particulares sobre saúde, família e negócio, tomando o lugar simbólico das benzedeiras do catolicismo popular, das cartomantes e dos pais e mães-de-santo. Há uma forte equivalência simbólica.
Nos cultos, ou se tem os “médiuns” ou se tem os “artistas”, que lideram o show-da-fé, no centro do palco e das atenções, promovendo o entretenimento.
C.S. Lewis denunciava as gerações que desprezam as outras do passado, supervalorizando o presente (presentismo). Isso não somente atenta contra a herança apostólica e o consenso dos fiéis, vivenciado através dos séculos, como também pretende ser melhor: restauradores da “pureza” e outras formas de arrogância espiritual, que rompem a unidade mística da “comunhão dos santos” (conforme confessamos nos Credos).
John Stott diz que o que faz uma liturgia viva ou morta, seja ela mais ou menos estruturada (não há liturgia informal, pois o “informal” é, apenas, uma outra forma), é o fato de os fiéis serem convertidos ou não e acreditarem ou não no que se pronuncia. A entonação, os sentimentos, a fé fazem a diferença. Foi o mesmo Stott quem disse que “um anglicano carismático não é um pentecostal”.
Somos carismáticos porque acreditamos que não há igreja sem o Espírito Santo, e não há presença do Espírito Santos sem carismas. Se Hans Kung disse que uma das marcas do anglicanismo era a sua aversão a extremismos, alguém também afirmou que “na Igreja Anglicana o Espírito Santo sopra como um gentil cavalheiro”.
Somos uma igreja que preza dois mil anos de herança litúrgica da igreja, católica e reformada. Herança que é o conjunto do que foi, nas diversas etapas e lugares, fruto da ação do Espírito Santo nas comunidades de fé. Daí o Livro de Oração Comum -- Bíblia pura, ortodoxia pura -- ser uma das marcas distintivas do anglicanismo. Os seus diversos ritos não engessam os crentes, antes os edificam, e podem ser intercalados com orações espontâneas, cantos, declamações, teatro, testemunho, em uma convergência com um presente que não rompe com o passado. Uma das maiores contribuições que a Diocese do Recife está fazendo para a maturidade da igreja no Brasil é a edição (ora no prelo) do Livro de Oração Comum Brasileiro (LOCb).
Há quem goste de culto batista tradicional, e nós os respeitamos. Quem gosta desse tipo de culto é livre para adorar em uma Igreja Batista. Há quem gosta de culto pentecostal “clássico”, e nós os respeitamos. Quem gosta desse tipo de culto é livre para ir, por exemplo, e adorar na Assembléia de Deus. Há quem goste do culto neo (pós) pentecostal, com apóstolos, banhos de descarrego, retirada de encostos e três recolhimentos de ofertas, e nós os respeitamos. Quem gosta desse tipo de culto é livre para ir à Igreja universal, Internacional ou Mundial. Agora, pelo amor de Deus, deixem o anglicanismo em paz, com sua liberdade litúrgica, com sua diversidade, sim, porém “com ordem e decência”, com a alegria do Espírito Santo e o LOCb na mão. E isso não é “anúncio de missa de sétimo dia” para se adotar como “um doloroso dever”, mas uma adesão livre, convicta e entusiástica.
Somos uma igreja sem mediunidade, sem estrelismo e sem “showbiz”, graças a Deus!
• Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política -- teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo -- desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br
13 de abril de 2009
Decepcionados com Deus por causa da igreja
Por Davi Lago
Muitos se decepcionam com Deus porque se decepcionam com a igreja. São pessoas que sofrem alguma decepção com a igreja e colocam a culpa em Deus. Existem entre 30 e 35 milhões de evangélicos no Brasil hoje. Mas as mesmas pesquisas revelam que há um número parecido de pessoas que já passaram alguma vez pela igreja, e a abandonaram. É inegável que há uma grande porta aberta nos fundos das igrejas evangélicas brasileiras.
Muitos estão decepcionados com os efeitos da teologia da prosperidade. São frases famosas em nossos dias: “templo é dinheiro”; “pequenas igrejas, grandes negócios”; “se Jesus é o caminho, Edir Macedo é o pedágio”. Devido aos inúmeros escândalos de corrupção de pastores evangélicos, muitos se decepcionaram com Deus.
Outros estão cansados da hipocrisia dos cristãos. Gandhi já dizia: “Eu seria cristão sem nenhuma dúvida, se os cristãos o fossem 24 horas por dia”. Li uma definição de cristão: “aquele que se arrepende domingo pelo que fez sábado e pelo que vai fazer na segunda-feira”. A hipocrisia e falta de santidade de vários crentes, tem levado muitas pessoas a decepcionar-se com Deus.
A falta de poder espiritual é outro problema sério. As pessoas vão às igrejas em busca de renovação espiritual através do Espírito Santo, e só encontram palavras de auto-ajuda. Falta unção nos cultos. Essa foi a decepção do pai do menino lunático citado em Mateus 17. Aquele homem pediu para os discípulos de Jesus que orassem e expulsassem o demônio que atormentava seu filho, mas eles não conseguiram fazê-lo.
As atrocidades cometidas pela igreja também levam muitos a abandonarem Deus. Matanças nas Idade Média, assassinatos e intolerância em nome de Deus. Ainda existem várias outras coisas que podem decepcionar alguém com a igreja: ser maltratado pelo pastor; ouvir sermões sem conteúdo; participar de cultos sem vida e alegria.
O fato é que muitas pessoas hoje, pensam que “quanto mais perto da igreja, mais longe de Deus”.
fonte:http://xequemategelado.blogspot.com/2008/05/decepcionados-com-deus-por-causa-da.html
Muitos se decepcionam com Deus porque se decepcionam com a igreja. São pessoas que sofrem alguma decepção com a igreja e colocam a culpa em Deus. Existem entre 30 e 35 milhões de evangélicos no Brasil hoje. Mas as mesmas pesquisas revelam que há um número parecido de pessoas que já passaram alguma vez pela igreja, e a abandonaram. É inegável que há uma grande porta aberta nos fundos das igrejas evangélicas brasileiras.
Muitos estão decepcionados com os efeitos da teologia da prosperidade. São frases famosas em nossos dias: “templo é dinheiro”; “pequenas igrejas, grandes negócios”; “se Jesus é o caminho, Edir Macedo é o pedágio”. Devido aos inúmeros escândalos de corrupção de pastores evangélicos, muitos se decepcionaram com Deus.
Outros estão cansados da hipocrisia dos cristãos. Gandhi já dizia: “Eu seria cristão sem nenhuma dúvida, se os cristãos o fossem 24 horas por dia”. Li uma definição de cristão: “aquele que se arrepende domingo pelo que fez sábado e pelo que vai fazer na segunda-feira”. A hipocrisia e falta de santidade de vários crentes, tem levado muitas pessoas a decepcionar-se com Deus.
A falta de poder espiritual é outro problema sério. As pessoas vão às igrejas em busca de renovação espiritual através do Espírito Santo, e só encontram palavras de auto-ajuda. Falta unção nos cultos. Essa foi a decepção do pai do menino lunático citado em Mateus 17. Aquele homem pediu para os discípulos de Jesus que orassem e expulsassem o demônio que atormentava seu filho, mas eles não conseguiram fazê-lo.
As atrocidades cometidas pela igreja também levam muitos a abandonarem Deus. Matanças nas Idade Média, assassinatos e intolerância em nome de Deus. Ainda existem várias outras coisas que podem decepcionar alguém com a igreja: ser maltratado pelo pastor; ouvir sermões sem conteúdo; participar de cultos sem vida e alegria.
O fato é que muitas pessoas hoje, pensam que “quanto mais perto da igreja, mais longe de Deus”.
fonte:http://xequemategelado.blogspot.com/2008/05/decepcionados-com-deus-por-causa-da.html
11 de abril de 2009
ABUSO ESPIRITUAL - praticado por alguns mal instruídos ou não vocacionados para o ministério e sim ASSOVIADOS ou por mera conveniência e favor!!!
Adaptado do artigo por David Henke
Organização Estrutural: O abuso espiritual pode ocorrer em qualquer organização estrutural, mas as estruturas mais autoritárias são ainda mais suscetíveis ao abuso espiritual sistemático.
Definição: Abuso espiritual é o uso impróprio de qualquer posição de poder, liderança, ou influência para satisfazer os desejos egoístas de um líder religioso.
Às vezes o abuso se origina em posições doutrinárias. Às vezes ele ocorre porque os interesses pessoais de um líder, ainda que legítimos, sejam satisfeitos de maneira ilegítima. Sistemas religiosos espiritualmente abusivos são comumente descritos como legalistas, controladores mentais, religiosamente viciadores, e autoritários.
Características Comuns:
1. Autoritarismo: A característica mais evidente de um sistema religioso abusivo, ou de um líder abusivo, é a ênfase excessiva em sua autoridade. Normalmente o grupo se diz ter sido estabelecido diretamente por Deus, e, portanto, seus líderes se consideram como tendo o direito de comandar seus seguidores.
Tal autoridade, supostamente, é derivada da posição que ocupam. Em Mateus 23:1–2 Jesus disse que “na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus”, uma posição de autoridade espiritual. Ainda que outros termos sejam usados, essa posição, nos grupos abusivos, é de poder, e não de autoridade moral. Àqueles que se submetem incondicionalmente, são prometidas bênçãos espirituais. A eles é dito que devem se submeter completamente, sem o direito de questionar os líderes; se os líderes estiverem errados, isso é problema deles com Deus, e Deus ainda assim abençoará àqueles que se submetem incondicionalmente.
2. Aparência Externa: O sistema religioso abusivo procura sempre manter uma aparência de santidade. A história do grupo ou organização quase sempre é distorcida para se dar a impressão de que ela tem um relacionamento especial com Deus. Os julgamentos incorretos e as índoles duvidosas de seus líderes são negados ou encobertos para que sua autoridade não seja questionada, e para manter as aparências. Padrões legalistas de pensamento e comportamento, impossíveis de serem mantidos, são impostos aos membros. Seu fracasso em manter tais padrões é usado como constante lembrete de que eles são inferiores aos líderes, e portanto devem se submeter a eles. Religião abusiva é, essencialmente, legalismo.
A religião abusiva também é paranóica. Apenas uma imagem positiva do grupo é apresentada àqueles que não fazem parte dele, porque a verdade sobre o sistema religioso abusivo seria obviamente rejeitada se fosse conhecida. Isso é justificado com base na alegação de que pessoas “mundanas” não entenderiam a religião, e portanto, eles não têm o direito de saber. Isso leva com que membros escondam das pessoas que não são membros algumas doutrinas, regras, e procedimentos internos do grupo. Principalmente os líderes, normalmente, mantêm segredos que não divulgam a suas congregações. Esse sigilo está baseado na desconfiança geral dos outros, porque o sistema é falso e não pode resistir a escrutínios.
3. Proibição de Críticas: O sistema religioso, por não ser baseado na verdade, não pode permitir questionamentos, dissensões, ou discussões aberta sobre questões. A pessoa que questiona se torna o próprio problema, ao invés da questão que ela levantou. As resoluções sobre qualquer questão vêm diretamente do topo da hierarquia. Qualquer tipo de questionamento é considerado como desafio à autoridade. O pensamento autônomo é desencorajado, sob a alegação de que ele leva à dúvida, que por sua vez é vista como sendo falta de fé em Deus e em seus líderes ungidos. Desse modo, os seguidores procuram controlar seus próprios pensamentos, por medo de que possam estar questionando Deus.
4. Perfeccionismo: Todas as bênçãos, nos sistemas abusivos, vêm através da desempenho próprio. O fracasso é seriamente condenado, e portanto a única alternativa é a perfeição. O membro, enquanto crer que esteja tendo sucesso em manter os requeridos padrões, normalmente exibe orgulho, elitismo, e arrogância. Entretanto, quando os tropeços e fracassos inevitavelmente ocorrem, o membro muitas vezes naufraga na fé. Aqueles que fracassam nos seus esforços são vistos como apóstatas, fracos, e são normalmente descartados pelo sistema.
5. Desequilíbrio: Os grupos abusivos têm de se distinguir de todos os outros grupos religiosos para que possam alegar serem únicos e especiais para Deus. Isso normalmente é feito através de uma ênfase exagerada em posições doutrinárias menos centrais (como por exemplo, profecias sobre os últimos dias), ou através de legalismo extremo, ou uso de métodos peculiares de interpretação bíblica. Dessa forma, suas conclusões e crenças peculiares são exibidas como prova de que são únicos e especiais para Deus.
Algumas Respostas Bíblicas
Existem vários exemplos de abuso espiritual na Bíblia. No livro de Ezequiel, por exemplo, Deus descreve e condena os “pastores de Israel” que apascentam a si mesmos e não as ovelhas, que não cuidam das doentes, desgarradas e perdidas, mas dominam sobre elas com rigor e dureza (Ez. 34:1–10). Jesus reagiu com indignação contra os cambistas no Templo, que exploravam os fiéis (Mt. 21:12–13; Mc. 11:15–18; Lc. 19:45–47; Jo. 2:13–16), e também contra aqueles que se importavam mais com suas próprias interpretações da Lei do que com o sofrimento humano (Mc. 3:1–5). Em Mateus 23, Jesus nos dá uma importante descrição dos líderes espirituais abusivos. Em Gálatas, Paulo argumenta contra aqueles que queriam impor um cristianismo legalista, subvertendo a mensagem do evangelho. Existem muitos outros exemplos na Bíblia.
Jesus Cristo era Deus encarnado, a segunda Pessoa da Trindade, o Criador do universo. Ele, obviamente, tem a mais alta e soberana autoridade espiritual. Ainda assim, Jesus não usou essa autoridade para subjugar seus discípulos; ele não abusou de sua autoridade para colocá-los sob o jugo de regras e regulamentos legalistas. Ao contrário, ele disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt. 11:28–30).
Nem tampouco Jesus procurava manter as aparências externas. Ele comia com publicanos e pecadores (Mt. 9:10–13). Aos fariseus legalistas, Jesus aplicou as palavras de Isaías: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt. 15:9). Ele condenou sua atitude: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade” (Mt. 23:27–28).
Jesus não era paranóico como os líderes abusivos. Seu ministério era transparente ao publico (Jo.18:19–21). Ele não tinha nada a esconder. Jesus não só criticou os líderes religiosos por suas doutrinas errôneas (Mt. 15:1–9; 23:1–39; etc.), mas também, quando criticado, ele não os silenciou, mas deu-lhes respostas bíblicas e racionais às suas objeções (e.g., Lc. 5:29–35; 7:36–47; Mt. 19:3–9).
Jesus, ainda que ensinasse a Lei perfeita de Deus, colocava as necessidades legítimas das pessoas acima de regras ou regulamentos legalistas (Mt.12:1–13; Mc. 2:23–3:5). Ainda que nenhum ser humano seja absolutamente perfeito nessa vida (1 Jo. 1:8), podemos saber que já temos vida eterna (1 Jo. 5:10–13; Jo. 5:24; 6:37–40; Rm. 8:1–2).
Os fariseus eram um exemplo de líderes espirituais abusivos: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mt. 23:23).
Efeitos do Abuso Espiritual
O abuso espiritual tem um efeito devastador na vida das pessoas. Elas normalmente depositam um alto grau de confiança em seus líderes, os quais deveriam honrar e guardar tal confiança. Quando essa confiança é traída, a ferida que se abre é muito grande, até mesmo a ponto da pessoa nunca mais poder confiar em líderes espirituais novamente, mesmo que eles sejam legítimos.
Uma situação análoga pode ser vista nas vítimas de incesto, que apresentam sintomas emocionais e psicológicos muito parecidos com os vistos naqueles que são abusados espiritualmente. O principal sintoma é a incapacidade que desenvolvem em se relacionarem normalmente com pessoas que representem ou tenha alguma associação mental com a fonte de sua dor emocional.
Além de desenvolverem medo e desilusão com relação a líderes religiosos, as vítimas de abuso espiritual muitas vezes têm dificuldade em confiar em Deus. Eles se perguntam, “como é que Deus pode ter permitido que isso acontecesse comigo? Tudo o que eu queria era amá-lo e servi-lo!” Muitas vezes, essas pessoas desenvolvem grande rancor. A raiva, por si própria, não é necessariamente pecado, pois até mesmo Deus se ira contra a injustiça (veja acima). Entretanto, se esse rancor não for progressivamente eliminado, ele pode estabelecer raízes de amargura e incredulidade com relação a tudo que seja espiritual.
Recuperando-se do Abuso Espiritual
Para que haja uma recuperação dos males causados pelo abuso espiritual, é preciso que a vítima entenda o que aconteceu, por que aconteceu, e como aconteceu. Ela também precisa entender que ela não é a única pessoa vitimada por esse tipo de abuso. Ela deve procurar grupos de apoio, e ser contínua e pacientemente ensinada sobre a graça de Deus. Os grupos de apoio são necessários não só para que a vítima seja ministrada pelo grupo, mas também para que ela possa usar sua experiência para ministrar a outras vítimas, o que é essencial para a sua recuperação.
A vítima também deve procurar eventualmente perdoar os que a abusaram. Normalmente alguns anos são necessários para que uma vítima de abuso espiritual possa ser totalmente restaurada.
Traduzido e adaptado com a permissao de Watchman Fellowship, Inc.Tradução e adaptação: Marcelo Parga de Souza
Organização Estrutural: O abuso espiritual pode ocorrer em qualquer organização estrutural, mas as estruturas mais autoritárias são ainda mais suscetíveis ao abuso espiritual sistemático.
Definição: Abuso espiritual é o uso impróprio de qualquer posição de poder, liderança, ou influência para satisfazer os desejos egoístas de um líder religioso.
Às vezes o abuso se origina em posições doutrinárias. Às vezes ele ocorre porque os interesses pessoais de um líder, ainda que legítimos, sejam satisfeitos de maneira ilegítima. Sistemas religiosos espiritualmente abusivos são comumente descritos como legalistas, controladores mentais, religiosamente viciadores, e autoritários.
Características Comuns:
1. Autoritarismo: A característica mais evidente de um sistema religioso abusivo, ou de um líder abusivo, é a ênfase excessiva em sua autoridade. Normalmente o grupo se diz ter sido estabelecido diretamente por Deus, e, portanto, seus líderes se consideram como tendo o direito de comandar seus seguidores.
Tal autoridade, supostamente, é derivada da posição que ocupam. Em Mateus 23:1–2 Jesus disse que “na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus”, uma posição de autoridade espiritual. Ainda que outros termos sejam usados, essa posição, nos grupos abusivos, é de poder, e não de autoridade moral. Àqueles que se submetem incondicionalmente, são prometidas bênçãos espirituais. A eles é dito que devem se submeter completamente, sem o direito de questionar os líderes; se os líderes estiverem errados, isso é problema deles com Deus, e Deus ainda assim abençoará àqueles que se submetem incondicionalmente.
2. Aparência Externa: O sistema religioso abusivo procura sempre manter uma aparência de santidade. A história do grupo ou organização quase sempre é distorcida para se dar a impressão de que ela tem um relacionamento especial com Deus. Os julgamentos incorretos e as índoles duvidosas de seus líderes são negados ou encobertos para que sua autoridade não seja questionada, e para manter as aparências. Padrões legalistas de pensamento e comportamento, impossíveis de serem mantidos, são impostos aos membros. Seu fracasso em manter tais padrões é usado como constante lembrete de que eles são inferiores aos líderes, e portanto devem se submeter a eles. Religião abusiva é, essencialmente, legalismo.
A religião abusiva também é paranóica. Apenas uma imagem positiva do grupo é apresentada àqueles que não fazem parte dele, porque a verdade sobre o sistema religioso abusivo seria obviamente rejeitada se fosse conhecida. Isso é justificado com base na alegação de que pessoas “mundanas” não entenderiam a religião, e portanto, eles não têm o direito de saber. Isso leva com que membros escondam das pessoas que não são membros algumas doutrinas, regras, e procedimentos internos do grupo. Principalmente os líderes, normalmente, mantêm segredos que não divulgam a suas congregações. Esse sigilo está baseado na desconfiança geral dos outros, porque o sistema é falso e não pode resistir a escrutínios.
3. Proibição de Críticas: O sistema religioso, por não ser baseado na verdade, não pode permitir questionamentos, dissensões, ou discussões aberta sobre questões. A pessoa que questiona se torna o próprio problema, ao invés da questão que ela levantou. As resoluções sobre qualquer questão vêm diretamente do topo da hierarquia. Qualquer tipo de questionamento é considerado como desafio à autoridade. O pensamento autônomo é desencorajado, sob a alegação de que ele leva à dúvida, que por sua vez é vista como sendo falta de fé em Deus e em seus líderes ungidos. Desse modo, os seguidores procuram controlar seus próprios pensamentos, por medo de que possam estar questionando Deus.
4. Perfeccionismo: Todas as bênçãos, nos sistemas abusivos, vêm através da desempenho próprio. O fracasso é seriamente condenado, e portanto a única alternativa é a perfeição. O membro, enquanto crer que esteja tendo sucesso em manter os requeridos padrões, normalmente exibe orgulho, elitismo, e arrogância. Entretanto, quando os tropeços e fracassos inevitavelmente ocorrem, o membro muitas vezes naufraga na fé. Aqueles que fracassam nos seus esforços são vistos como apóstatas, fracos, e são normalmente descartados pelo sistema.
5. Desequilíbrio: Os grupos abusivos têm de se distinguir de todos os outros grupos religiosos para que possam alegar serem únicos e especiais para Deus. Isso normalmente é feito através de uma ênfase exagerada em posições doutrinárias menos centrais (como por exemplo, profecias sobre os últimos dias), ou através de legalismo extremo, ou uso de métodos peculiares de interpretação bíblica. Dessa forma, suas conclusões e crenças peculiares são exibidas como prova de que são únicos e especiais para Deus.
Algumas Respostas Bíblicas
Existem vários exemplos de abuso espiritual na Bíblia. No livro de Ezequiel, por exemplo, Deus descreve e condena os “pastores de Israel” que apascentam a si mesmos e não as ovelhas, que não cuidam das doentes, desgarradas e perdidas, mas dominam sobre elas com rigor e dureza (Ez. 34:1–10). Jesus reagiu com indignação contra os cambistas no Templo, que exploravam os fiéis (Mt. 21:12–13; Mc. 11:15–18; Lc. 19:45–47; Jo. 2:13–16), e também contra aqueles que se importavam mais com suas próprias interpretações da Lei do que com o sofrimento humano (Mc. 3:1–5). Em Mateus 23, Jesus nos dá uma importante descrição dos líderes espirituais abusivos. Em Gálatas, Paulo argumenta contra aqueles que queriam impor um cristianismo legalista, subvertendo a mensagem do evangelho. Existem muitos outros exemplos na Bíblia.
Jesus Cristo era Deus encarnado, a segunda Pessoa da Trindade, o Criador do universo. Ele, obviamente, tem a mais alta e soberana autoridade espiritual. Ainda assim, Jesus não usou essa autoridade para subjugar seus discípulos; ele não abusou de sua autoridade para colocá-los sob o jugo de regras e regulamentos legalistas. Ao contrário, ele disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt. 11:28–30).
Nem tampouco Jesus procurava manter as aparências externas. Ele comia com publicanos e pecadores (Mt. 9:10–13). Aos fariseus legalistas, Jesus aplicou as palavras de Isaías: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt. 15:9). Ele condenou sua atitude: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade” (Mt. 23:27–28).
Jesus não era paranóico como os líderes abusivos. Seu ministério era transparente ao publico (Jo.18:19–21). Ele não tinha nada a esconder. Jesus não só criticou os líderes religiosos por suas doutrinas errôneas (Mt. 15:1–9; 23:1–39; etc.), mas também, quando criticado, ele não os silenciou, mas deu-lhes respostas bíblicas e racionais às suas objeções (e.g., Lc. 5:29–35; 7:36–47; Mt. 19:3–9).
Jesus, ainda que ensinasse a Lei perfeita de Deus, colocava as necessidades legítimas das pessoas acima de regras ou regulamentos legalistas (Mt.12:1–13; Mc. 2:23–3:5). Ainda que nenhum ser humano seja absolutamente perfeito nessa vida (1 Jo. 1:8), podemos saber que já temos vida eterna (1 Jo. 5:10–13; Jo. 5:24; 6:37–40; Rm. 8:1–2).
Os fariseus eram um exemplo de líderes espirituais abusivos: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mt. 23:23).
Efeitos do Abuso Espiritual
O abuso espiritual tem um efeito devastador na vida das pessoas. Elas normalmente depositam um alto grau de confiança em seus líderes, os quais deveriam honrar e guardar tal confiança. Quando essa confiança é traída, a ferida que se abre é muito grande, até mesmo a ponto da pessoa nunca mais poder confiar em líderes espirituais novamente, mesmo que eles sejam legítimos.
Uma situação análoga pode ser vista nas vítimas de incesto, que apresentam sintomas emocionais e psicológicos muito parecidos com os vistos naqueles que são abusados espiritualmente. O principal sintoma é a incapacidade que desenvolvem em se relacionarem normalmente com pessoas que representem ou tenha alguma associação mental com a fonte de sua dor emocional.
Além de desenvolverem medo e desilusão com relação a líderes religiosos, as vítimas de abuso espiritual muitas vezes têm dificuldade em confiar em Deus. Eles se perguntam, “como é que Deus pode ter permitido que isso acontecesse comigo? Tudo o que eu queria era amá-lo e servi-lo!” Muitas vezes, essas pessoas desenvolvem grande rancor. A raiva, por si própria, não é necessariamente pecado, pois até mesmo Deus se ira contra a injustiça (veja acima). Entretanto, se esse rancor não for progressivamente eliminado, ele pode estabelecer raízes de amargura e incredulidade com relação a tudo que seja espiritual.
Recuperando-se do Abuso Espiritual
Para que haja uma recuperação dos males causados pelo abuso espiritual, é preciso que a vítima entenda o que aconteceu, por que aconteceu, e como aconteceu. Ela também precisa entender que ela não é a única pessoa vitimada por esse tipo de abuso. Ela deve procurar grupos de apoio, e ser contínua e pacientemente ensinada sobre a graça de Deus. Os grupos de apoio são necessários não só para que a vítima seja ministrada pelo grupo, mas também para que ela possa usar sua experiência para ministrar a outras vítimas, o que é essencial para a sua recuperação.
A vítima também deve procurar eventualmente perdoar os que a abusaram. Normalmente alguns anos são necessários para que uma vítima de abuso espiritual possa ser totalmente restaurada.
Traduzido e adaptado com a permissao de Watchman Fellowship, Inc.Tradução e adaptação: Marcelo Parga de Souza
11 de março de 2009
A FORMAÇÃO DA TEOLOGIA PENTECOSTAL NO BRASIL
importância dos missionários escandinavos e norte-americanos na formação da identidade teológica da Assembléia de Deus brasileira
Apesar das constantes incidências de modismos teológicos no cenário evangélico brasileiro, a Assembléia de Deus é hoje uma das igrejas com maior solidez bíblica doutrinária em nosso país. Isso se deve a anos de formação de sua identidade teológica, sob a influência direta dos missionários escandinavos e norte-americanos. Como se deu essa influência?
Para entendermos isso, acredito que dois pontos devem ser analisados. Primeiro: Quem exerceu maior influência? Os missionários escandinavos ou os norte-americanos? Segundo: Havia alguma divergência doutrinária entre a Teologia pentecostal escandinava e a norte-americana?
QUEM EXERCEU MAIOR INFLUÊNCIA?
Como sabemos, a Assembléia de Deus no Brasil foi fundada por missionários escandinavos, porém sua Teologia sofreu igualmente influência da igreja pentecostal escandinava e das Assembléias de Deus norte-americanas. A diferença é quanto ao tempo de influência dos dois grupos. O primeiro exerceu sua influência teológica nas primeiras cinco décadas do Movimento Pentecostal brasileiro. Os norte-americanos estão exercendo sua influência teológica no Brasil pentecostal já há 40 anos.
Se na liturgia e em alguns costumes podemos afirmar que ainda somos herdeiros dos primeiros missionários suecos (se bem que, nos últimos 15 anos, a influência norte-americana na nossa liturgia e costumes aumentou), pode-se dizer que teologicamente fomos influenciados mais pelos missionários norte-americanos do que pelos escandinavos. Excetuando a influência na Assembléia de Deus do missionário escandinavo Eurico Bergstén, falecido em 1999, são os norte-americanos que mais influenciaram a Teologia Pentecostal brasileira na quatro últimas décadas.
Ao lermos a história da Assembléia de Deus brasileira em seus primeiros anos, percebemos que, da década de 10 até os anos 40, os missionários suecos eram soberanos na orientação doutrinária. Nos primeiros anos, a voz da Teologia assembleiana eram os artigos dos suecos nos jornais Boa Semente, Som Alegre e Mensageiro da Paz, e na série Lições Bíblicas, com comentários exclusivamente dos missionários escandinavos nas primeiras décadas. Há artigos de brasileiros nesses periódicos, mas só eram publicados aqueles que passavam pelo crivo teológico dos missionários escandinavos. Além disso, os artigos de articulistas norte-americanos ou britânicos (notadamente Donald Gee, cujos estudos sobre dons espirituais foram preciosos para a nascente igreja no Brasil) eram escolhidos e traduzidos pelos missionários suecos antes de serem publicados nos periódicos.
Um detalhe dos anos 10, 20 e 30 é que havia certa igualdade entre os missionários escandinavos quanto à influência teológica. Gunnar Vingren, Samuel Nyström, Nils Kastberg, Otto Nelson, Nels Nelson e Joel Carlson se dividiam nessa tarefa, ora por meio de artigos, ora pelas ministrações de estudos bíblicos nas igrejas sob sua responsabilidade. Porém, de meados dos 30 até o início dos 40 (isto é, depois da partida de Vingren, ocorrida em 1932), o missionário Samuel Nyström passou a se destacar como o grande nome da Teologia Pentecostal no Brasil. Em muitos casos, questões doutrinárias eram dirimidas, até em reuniões de Convenção Geral das Assembléias de Deus, depois de ser ouvido Nyström.
Nyström foi o quarto missionário escandinavo pentecostal a aportar em solo brasileiro. Conhecido como o grande pregador e ensinador, sua vinda foi uma grande conquista para a obra no Brasil. Além do sueco, sua língua natal, falava o português e o inglês fluentemente, e tinha noções de grego e hebraico. Antes de liderar a Assembléia de Deus em São Cristóvão, no Rio, ele pastoreou a igreja-mãe em Belém do Pará, tendo inaugurado o primeiro templo assembleiano na capital paraense. Foi ele quem deu início ao movimento beneficente em favor das viúvas de pastores e é até hoje o líder que mais vezes foi eleito presidente da CGADB. Foram nove vezes (1933, 1934, 1936, 1938, 1939, 1941, 1943, 1946 e 1948). Sua influência era tão grande que a vinda de Nyström para a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, substituindo o pioneiro Gunnar Vingren, fez com que a Assembléia de Deus de São Cristóvão se tornasse uma espécie de centro da obra no Brasil, o que durou por muito tempo.
Lendo as páginas do jornal Mensageiro da Paz no final dos anos 30 e início dos 40, vemos que o nome de Nyström era quase onipresente nas escolas bíblicas de obreiros nos país. Intensamente requisitado, viajava o Brasil inteiro para ministrar estudos bíblicos concorridos, especialmente sobre Dispensacionalismo, os efeitos da obra de Cristo, o Corpo de Cristo e doutrinas bíblicas fundamentais. Nessa época, devido ao estrondoso sucesso de seus estudos, um deles virou livro, publicado pela CPAD: Jesus Cristo, Nossa Glória. Esta obra traz uma exposição sobre as doutrinas da Redenção, Santificação e Justificação. É impressionante o fato de que tenha vendido cerca de 5 mil exemplares em sua primeira tiragem nos anos 30, em uma época em que boa parte dos assembleianos não era afeita à leitura. A obra só seria reeditada nos anos 80.
Porém, a partir especialmente do final dos anos 30, começaram a aportar no país missionários da Assembléia de Deus dos EUA que, aos poucos, se notabilizaram na orientação teológica dos primeiros obreiros brasileiros.
No final dos anos 40 e início dos 50, despontam notadamente nas escolas bíblicas pelo país os nomes do missionários norte-americanos. Podemos dizer que inicia aqui o processo de cristalização da Teologia Pentecostal no Brasil, pois só com os missionários norte-americanos houve uma sistematização maior das doutrinas bíblicas na Assembléia de Deus.
Pesquisando as páginas do Mensageiro da Paz nos anos 40 e 50, notamos que os destaques nas escolas bíblicas agora eram os missionários norte-americanos Lawrence Olson, Leonard Pettersen, Teodoro Stohr e John Peter Kolenda, mais conhecido como JP Kolenda. Nesse período, do lado escandinavo, impõe-se apenas os nomes dos missionários Nels Nelson e Lars Erik Bergstén, e que aportou em plagas brasileiras no final da década do 40. Nesse período, Nyström já saíra de cena, de volta à Suécia.
Nels Nelson era presença constante nas escolas bíblicas de obreiros pelo país, mas, sem dúvida, Bergstén foi muito mais influente na formação da Teologia Pentecostal. Enquanto Nelson ministrava mais sobre Prática e Teologia Pastoral, Bergstén era mais sistemático e seus estudos abordavam todas as doutrinas bíblicas. Isso não significa dizer que Bergstén era rebuscado em seu discurso. Uma de suas marcas era a simplicidade com que ele abordava os pontos doutrinários, além do largo uso de citações bíblicas para explicar e reforçar o que estava ensinando. Sua biblicidade e a forma apaixonada como falava sobre a necessidade de os obreiros amarem a Bíblia para crescerem espiritualmente foram imensamente importantes para formações de gerações de obreiros assembleianos.
Vale lembrar ainda que se Nels Nelson não exercia uma grande influência teológica na Assembléia de Deus brasileira, tal qual Bergstén, sua influência como líder, porém, era muito forte. Nels Nelson foi o último grande líder sueco da Assembléia de Deus brasileira. Assim, Nelson e Bergstén foram os nomes que ainda mantiveram a influência escandinava em nosso país.
Nelson faleceu nos anos 60. A partir daí, a liderança da Assembléia de Deus brasileira tornou-se quase que totalmente autóctone. Excetuando os missionários Nils Taranger, no Rio Grande do Sul (falecido nos anos 90), Gustavo Arn Johansson, em Maceió (que liderou de 1963-1965) e alguns missionários noruegueses no Sul, não havia mais missionários escandinavos liderando igrejas. É verdade que alguns missionários norte-americanos chegaram a liderar igrejas em nosso país, mas por pouco tempo e sem exercer influência na liderança nacional, como exerciam Nelson e os demais escandinavos antes dele. A influência norte-americana passou a ser mesmo só na área teológica.
No período pós Nels Nelson, Eurico Bergstén passou a ser a única referência teológica escandinava. E que influência! Basta lembrar que é, até hoje, o maior comentarista de Lições Bíblicas da história da Assembléia de Deus brasileira. Foram mais de 30 revistas de Escola Dominical escritas em quase 40 anos. Era quase uma revista por ano, todas abordando variadas doutrinas bíblicas. Até sua morte, em 1999, a presença de Bergstén era constante em estudos bíblicos e conferências pelo país. Ao lado de Lawrence Olson, Bergstén foi, consciente ou inconscientemente, um dos grandes moldadores da Teologia Pentecostal no Brasil.
Ao falarmos isso, é importante dizer que não estamos dizendo que havia uma relatividade entre missionários suecos e norte-americanos na formação teológica dos obreiros brasileiros. Apenas reconhecemos que, ao lermos a história da Assembléia de Deus brasileira, percebemos que é nítida a aceitação natural desses nomes, por parte dos obreiros brasileiros, como formadores de sua identidade teológica.
SISTEMATIZAÇÃO DA TEOLOGIA
É também a partir dos anos 50 que são traduzidos para o português, pelos missionários norte-americanos, muitos livros de cunho teológico pentecostal vindos da outra América e que por muito tempo se tornaram a referência teológica dos obreiros brasileiros, sem contar os bons livros produzidos pelos próprios missionários norte-americanos aqui no Brasil. Destaque para Conhecendo as doutrinas da Bíblia e Através da Bíblia, de Myer Pearlman, traduzidos por Lawrence Olson. Essas duas obras tiveram grande sucesso e aceitação, principalmente a primeira, que vendeu mais de 100 mil exemplares e foi, durante muito tempo, a Teologia Sistemática dos obreiros pentecostais brasileiros.
Olson ainda produziria clássicos como O Plano Divino Através dos Séculos, que vendeu mais de 100 mil exemplares. Esse livro popularizaria no Brasil o Dispensacionalismo, adotado pela maioria dos obreiros brasileiros até hoje. Quem não se lembra daquele quadro colorido e retangular que ilustrava a história da humanidade segundo a Bíblia, de antes da criação do mundo até o final dos tempos? O quadro O Plano Divino Através dos Séculos pode ser encontrado em muitas casas de obreiros pelo Brasil até hoje.
Outro importante nome, tanto na tradução de obras em inglês como na produção de livros teológicos, é Orland Spencer Boyer (também missionário dos EUA), que além de escrever livros inspirativos, produziu a série Espada Cortante, que marcou época, instruindo muitos.
Porém, o maior destaque, ao lado de Conhecendo as doutrinas da Bíblia, é de iniciativa escandinava. Uma série de estudos bíblicos de Eurico Bergstén, que por muito tempo serviram como livro-texto da Escola Teológica das Assembléia de Deus no Brasil (Esteadeb), foi transformada posteriormente em livro: Teologia Sistemática (CPAD). Está é a única obra de Teologia Sistemática pentecostal produzida pela Assembléia de Deus no Brasil até a presente data. Apesar de sintética, foi a mais aprofundada e sólida tentativa de organizar e sistematizar a Teologia pentecostal em um único compêndio.
Nos anos 90, a CPAD publicaria Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal, editada por Stanley Horton (maior expoente da Teologia Pentecostal nos EUA) e escrita por 18 teólogos da Assembléia de Deus norte-americana. Em seguida também foi lançado Doutrinas Bíblicas, do teólogo William Menzies, também dos EUA. Porém, a de Bergstén e a editada por Horton são as grandes referências teológicas da Assembléia de Deus brasileira hoje. Depois dessas duas obras, a de Pearlman ficou um pouco esquecida.
Finalmente, completando a tríade literária que serve hoje de referência para a Teologia da Assembléia de Deus brasileira, foi lançada, também nos anos 90, a Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD), com quase um milhão de exemplares vendidos só no Brasil. As notas são de autoria do pastor Donald Stamps, missionário norte-americano em nossa país.
Mas, novas boas notícias chegarão em breve. Depois de 95 anos de Assembléia de Deus, a CPAD começa o projeto de elaboração da primeira Teologia Sistemática Pentecostal genuinamente brasileira, escrita por teólogos da Assembléia de Deus em nosso país. Desejamos uma boa recepção para essa obra!
INSTITUTOS BÍBLICOS
O passo mais significativo dos missionários norte-americanos para a formação teológica dos obreiros brasileiros foi, sem dúvida, a polêmica criação de institutos bíblicos. Polêmica por não ter sido aceita inicialmente pelo obreiros brasileiros, satisfeitos apenas com o modelo das escolas bíblicas de curta duração, implantado pelos suecos. Anuais, as escolas bíblicas de obreiros duravam de duas semanas a um mês, estudavam temas diferentes a cada ano e até hoje fazem parte da tradição assembleiana no Brasil.
A principal crítica que se fazia aos institutos bíblicos é a de que eram “fábricas de pastores”. Apesar de todas as críticas, os norte-americanos levaram adiante seu projeto. Em 1959, com o apoio de JP Kolenda, o jovem pastor João Kolenda Lemos e sua esposa, a missionária norte-americana Ruth Dorris Lemos, fundariam o Instituto Bíblico da Assembléia de Deus (Ibad) em Pindamonhangaba (SP). Em seguida, em 1962, Lawrence Olson funda o Instituto Bíblico Pentecostal (IBP) no Rio de Janeiro. Olson e Orland Boyer ainda municiaram os obreiros brasileiros com belas obras teológicas de suas lavras a partir desse período. Olson ainda tinha a seu favor o programa Voz da Assembléia de Deus, com mensagens bíblicas enriquecidas de informações e curiosidades que despertavam nos ouvintes o desejo de se aprofundarem no conhecimento bíblico.
Vale lembrar que porque esses dois institutos foram fundados sem o apoio da maioria dos obreiros brasileiros, isso fez deles um grande desafio. Foi só nos anos 70 que iniciou-se um processo de aceitação dos institutos. O Ibad e o IBP só foram reconhecidos oficialmente pela Convenção Geral das Assembléia de Deus no Brasil em 1973 e 1975, respectivamente. É nesse período que nascem várias outras escolas teológicas (em forma de instituto) fundadas por obreiros brasileiros, e a Escola de Ensino Teológico das Assembléias de Deus (Eetad), fundada pelo missionário norte-americano Bernhard Johnson, em Campinas (SP).
Hoje, vivemos uma conseqüência clara disso. É interessante notar que os grandes teólogos nacionais da Assembléia de Deus brasileira só começaram a despontar mais a partir dos anos 70. Não que antes dos anos 70 não tenham havido nomes de destaque na Teologia da Assembléia de Deus entre os nacionais. Basta lembrar que é nos anos 60 que começa a aparecer o pastor e teólogo Antonio Gilberto, que veio a notabilizar a partir de 1974, com a criação do Curso de Aperfeiçoamento de Escola Dominical (Caped). É dele muitos best-sellers, como o Manual de Escola Dominical, lançado em 1974 e que já vendeu cerca de 150 mil exemplares. E que dizer do pastor Estevam Ângelo de Souza? É também outro grande exemplo. Porém, notadamente, só a partir dos anos 70 é que o leque aumenta. Atualmente, há vários nomes, e isso tem muito a ver com a mudança de visão em relação à importância dos seminários e institutos bíblicos, ocorrida à pouco mais de 30 anos.
DIFERENÇAS ENTRE O ESTILO ESCANDINAVO E O NORTE-AMERICANO
Não há muita diferença entre a Teologia pentecostal escandinava e a norte-americana. A diferença está mesmo nos estilos do que no conteúdo. Os escandinavos preferiam mais o sistema de escolas bíblicas informais e anuais de curta duração (daí a inspiração para criar as tradicionais escolas bíblicas de obreiros no Brasil). Os norte-americanos preferiam os institutos bíblicos, com o ensino formal das Escrituras e cursos de longa duração como as igrejas evangélicas tradicionais já faziam há muito tempo. Nos EUA, era comum o obreiro, antes de ser ordenado ao ministério, passar, em média, quatro anos em um instituto bíblico. Já na Suécia, só havia, na época, as escolas bíblicas de verão em Nyem (cidade sueca), uma espécie de curso intensivo de três meses para missionários e obreiros. Os alunos recebiam certificados, mas o curso era mais informal. Porém, ninguém era ordenado ao ministério ou enviado ao campo missionário pela Igreja Filadélfia, liderada pelo pastor Lewi Pethrus, sem antes passar por esse curso.
Com exceção de Daniel Berg e Gunnar Vingren, que foram pioneiros e se filiaram à Igreja Filadélfia depois de iniciada a obra no Brasil, todos os outros missionários escandinavos que aportaram em nosso país passaram por esse curso. Berg não estudou Teologia formalmente. Vingren, antes de vir ao Brasil, fora ordenado pastor pela Convenção Batista dos Estados Unidos. Para isso, formou-se em Teologia em um instituto bíblico e estagiou pastoreando uma Igreja Batista Sueca nos EUA. Quando estava pleiteando ser enviado como missionário à Índia, foi batizado no Espírito Santo, encontrou-se com Berg e Deus mudou os seus planos. Ainda bem!
Devido às diferenças entre a preparação teológica dos missionários escandinavos e norte-americanos, o estilo de ensino adotado por eles no Brasil era diferente. Analisando, por exemplo, os artigos doutrinários de um e de outro grupo no jornal Mensageiro da Paz, notamos que os suecos eram mais práticos, enquanto os norte-americanos eram mais sistemáticos. E, ao que parece, os obreiros brasileiros gostavam mais da simplicidade escandinava do que do estilo norte-americano. Só a partir dos anos 50 é que os brasileiros passaram a simpatizar mais com os doutrinadores norte-americanos, especialmente pelas ministrações bíblicas saborosas de nomes como Olson, JP, Stohr e Pettersen.
Outro detalhe: tanto os escandinavos quanto os norte-americanos aplicavam bem a hermenêutica, mas os norte-americanos eram um pouco mais voltados a exegese de textos bíblicos. O único missionário escandinavo que se aplicava no uso da exegese era Samuel Nyström. Aliás, Nyström era considerado pelos brasileiros como “o maior ensinador das Escrituras” no nascente Movimento Pentecostal em nosso país.
Interessante que os missionários escandinavos não ensinavam o Dispensacionalismo, que era a “moda” teológica da época, uma maneira mais prática de os teólogos interpretarem os fatos bíblicos. A única exceção foi Nyström. Até onde se sabe, ele foi o primeiro a ensinar o Dispensacionalismo para a Assembléia de Deus brasileira antes mesmo dos norte-americanos. Porém, coube a Lawrence Olson popularizar o Dispensacionalismo no Brasil, principalmente por meio de seus livros e do Instituto Bíblico Pentecostal.
É curioso ver que o Dispensacionalismo não está mais em voga nos Estados Unidos. A maior parte da Assembléia de Deus norte-americana não mais usa esse sistema de interpretação das Escrituras, que, é preciso dizer, no caso assembleiano, tinha uma pequena diferença do Dispensacionalismo clássico: os assembleianos sempre deixaram de lado a separação entre a Igreja e Israel, o que era o ponto-chave do Dispensacionalismo.
Hoje, a Assembléia de Deus norte-americana está mais voltada para “o estudo das aplicações teológicas e missiológicas do Reino de Deus”. Uma análise precisa dessa mudança de foco está em Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal, nas páginas 32 e 36.
Outro ponto a ser frisado é que os missionários escandinavos, por chegarem aqui primeiro, gastaram mais tempo procurando estabelecer as bases teológicas da igreja brasileira e reforçando as doutrinas bíblicas distintivas do pentecostalismo, muito atacadas pelas igrejas tradicionais nas primeiras décadas. A maior parte dos textos doutrinários dos primeiros 30 anos do Movimento Pentecostal brasileiro era de caráter apologético, de defesa das doutrinas bíblicas pentecostais. O restante era apenas sobre pontos doutrinários básicos: Salvação, Santificação e Vinda de Jesus. Por isso, quando os missionários norte-americanos vieram, corroboraram essas bases, mas, sobretudo, erigiram um edifício sobre elas, aprofundando esses pontos doutrinários (especialmente a Escatologia Bíblica) e salientando outros, menos abordados até então (como, por exemplo, a Doutrina da Trindade, do Pecado Original e dos Anjos).
O missionário Eurico Bergstén se destaca nesse período justamente porque também foi além das bases. Por exemplo: ao falar da Salvação, Bergstén expunha e destrinchava as doutrinas bíblicas da expiação, justificação, adoção e glorificação (o que Nyström, nos anos 40, começou a fazer timidamente), e a questão da perseverança dos santos, da segurança da Salvação. Aliás, o mal entendimento desse último ponto foi o que levou a uma das primeiras cisões da história da Assembléia de Deus.
No início dos anos 30, nasceu no Nordeste do Brasil a Assembléia de Cristo, formada por obreiros nacionais, entre eles Manoel Higino de Souza, que passaram a crer que “uma vez salvo, salvo para sempre”. É que os missionários suecos não se preocupavam em falar da Doutrina da Predestinação e da Segurança da Salvação, até que um obreiro nacional leu um panfleto calvinista sobre esse assunto e começou a ensinar que aqueles que aceitam a Cristo não têm possibilidade de perder a Salvação. Ora, os escandinavos eram arminianos (os missionários da Assembléia de Deus norte-americana, que chegariam depois, também). O que foi que aconteceu? Tentaram convencer Higino do contrário, mas em vão. Por nunca terem ensinado sobre esse assunto, quando a divergência teológica surgiu, não puderam saná-la eficientemente. A maioria esmagadora apoiou os missionários suecos, mas a cisão aconteceu. Se houvesse um ensino preventivo sobre esse ponto doutrinário, talvez essa cisão nunca tivesse ocorrido.
É só a partir dos 50 que os estudos bíblicos ganham mais densidade e profundidade. A criação de institutos bíblicos foi a conseqüência direta disso. Os obreiros brasileiros precisavam se aprofundar mais no conhecimento bíblico.
Se os escandinavos fizeram um bom trabalho de base e de estabelecimento da identidade pentecostal, os norte-americanos fizeram um bom trabalho preventivo em relação a modismos. Antes que determinadas doutrinas que já eram populares nos EUA ganhassem força no Brasil, eles preveniam os obreiros sobre elas. Por exemplo, na Convenção Geral de 1962, em Recife, são o missionário Lawrence Olson e o pastor Raymond Carlson, então presidente do Instituto Bíblico da Assembléia de Deus em Minessota (e que depois seria líder do Concílio Geral das Assembléias de Deus nos EUA) que previnem os obreiros, em estudo bíblico, sobre os perigos do ecumenismo, uma onda nova na época. Ao final daquela convenção, Olson, Bergstén e o pastor Alcebíades Vasconcelos, representando os obreiros brasileiros, assinam um documento, em nome da CGADB, contra o ecumenismo.
Ainda havia os estudos dos norte-americanos sobre os erros do evolucionismo, o liberalismo teológico, a Teologia da Libertação etc. Como reflexo desse ensino, surgiram muitos bons livros de autores nacionais sobre esses assuntos nos anos seguintes. O pastor Abraão de Almeida, por exemplo, escreve nos anos 80 sua Teologia Contemporânea (CPAD), com prefácio de Lawrence Olson. Nascia a reflexão teológica, estimulada pelos norte-americanos.
Outro exemplo: a febre pela Escatologia Bíblica no Brasil foi encetada pelos norte-americanos e incentivada pela conjuntura internacional - a Guerra Fria. Nesse período, depois da reedição de O Plano Divino Através dos Séculos nos anos 70 e do lançamento do polêmico Alinhamento dos planetas (1980), ambas obras de Olson, surgiu uma demanda decorrente do interesse despertado dos crentes por Escatologia. É quando surgem muitas obras teológicas em profusão sobre o assunto, como as dos pastores Antonio Gilberto, Abraão de Almeida e Severino Pedro. O detalhe é que a visão escatológica de muitas dessas obras era importada da visão escatológica norte-americana. A significativa obra Israel, Gogue e o Anticristo (CPAD), de Abraão de Almeida, que marcou época e vendeu mais de 50 mil exemplares, é um exemplo. As interpretações sobre a profecia contra Gogue (Ezequiel 38), vista como uma referência à Rússia e à China, são uma influência clara da Escatologia norte-americana. Os escandinavos não se preocupavam com esses pormenores. Sua Escatologia era menos detalhista e pouco especulativa. Preocupava-se mais com o entendimento do essencial.
ÚNICO E RELATIVO CASO DE DIVERGÊNCIA
E quanto às discrepâncias de conteúdo entre a Teologia pentecostal escandinava e a norte-americana?
Como já ressaltei, foi só depois dos anos 50 que o estudo das doutrinas bíblicas foi mais aprofundado na Assembléia de Deus brasileira. Assim, se houvesse alguma discrepância teológica entre os escandinavos e norte-americanos, ela surgiria a partir de esse período, pois é na exposição dos detalhes que surgem as diferenças. Porém, o que se via era uma concordância mútua. A única diferença encontrada, mas não muito explorada, foi quanto à Doutrina da Criação do Universo. Aqui, sim, encontramos a única divergência teológica concreta entre escandinavos e norte-americanos. Mesmo assim, relativa.
Eurico Bergstén, em sua Teologia Sistemática, ensinava a Teoria da Recriação da Terra (também chamada de Teoria da Lacuna), que diz que entre Gênesis 1.1 e 1.2 há um interregno de tempo, onde teriam ocorrido a queda de Satanás e o caos no Universos. A Terra, que teria sido criada perfeita antes de Lúcifer cair, teria ficado, após a queda do ser angelical, sem forma e vazia. Logo, o relato que vai de Gênesis 1.2 em diante seria não o da criação da Terra, mas da recriação. Isso pode ser visto nas páginas 49 e 52 de sua obra. “A Terra foi restaurada em seis dias”, assevera Bergstén.
Ao que parece, nem todos os missionários norte-americanos simpatizavam muito com essa teoria. Lawrence Olson, porém, seria uma grande exceção, o que relativiza essa discrepância. Ele ensinava o mesmo, como pode ser visto nas primeiras páginas de O Plano Divino Através dos Séculos. Mas, a obra Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal, escrita pelos Teólogos da Assembléia de Deus norte-americana, rechaça essa teoria, como pode ser visto nas páginas 232 a 235. “A Teoria da Lacuna apresenta várias fraquezas”, arremata conclusivamente os pastor e teólogo Timothy Munyon.
Como vimos, as diferenças eram muito pequenas. A Teologia era praticamente a mesma em todos os pontos. E isso foi muito bom, porque fortes divergências teológicas criariam cismas. Se hoje a Assembléia de Deus é minimamente unida e consolidada em sua identidade teológica, deve isso à influência desses nobres missionários escandinavos e norte-americanos, que deram as suas vidas pela evangelização e estabelecimento da obra de Deus em nosso país.
Por, Silas Daniel - Ministro do Evangelho, jornalista, conferencista e autor dos livros A Sedução das Novas Teologias, Habacuque - a vitória da fé em meio ao caos e História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Todos pela CPAD.
Manual do Obreiro (CPAD) - 2006.
Apesar das constantes incidências de modismos teológicos no cenário evangélico brasileiro, a Assembléia de Deus é hoje uma das igrejas com maior solidez bíblica doutrinária em nosso país. Isso se deve a anos de formação de sua identidade teológica, sob a influência direta dos missionários escandinavos e norte-americanos. Como se deu essa influência?
Para entendermos isso, acredito que dois pontos devem ser analisados. Primeiro: Quem exerceu maior influência? Os missionários escandinavos ou os norte-americanos? Segundo: Havia alguma divergência doutrinária entre a Teologia pentecostal escandinava e a norte-americana?
QUEM EXERCEU MAIOR INFLUÊNCIA?
Como sabemos, a Assembléia de Deus no Brasil foi fundada por missionários escandinavos, porém sua Teologia sofreu igualmente influência da igreja pentecostal escandinava e das Assembléias de Deus norte-americanas. A diferença é quanto ao tempo de influência dos dois grupos. O primeiro exerceu sua influência teológica nas primeiras cinco décadas do Movimento Pentecostal brasileiro. Os norte-americanos estão exercendo sua influência teológica no Brasil pentecostal já há 40 anos.
Se na liturgia e em alguns costumes podemos afirmar que ainda somos herdeiros dos primeiros missionários suecos (se bem que, nos últimos 15 anos, a influência norte-americana na nossa liturgia e costumes aumentou), pode-se dizer que teologicamente fomos influenciados mais pelos missionários norte-americanos do que pelos escandinavos. Excetuando a influência na Assembléia de Deus do missionário escandinavo Eurico Bergstén, falecido em 1999, são os norte-americanos que mais influenciaram a Teologia Pentecostal brasileira na quatro últimas décadas.
Ao lermos a história da Assembléia de Deus brasileira em seus primeiros anos, percebemos que, da década de 10 até os anos 40, os missionários suecos eram soberanos na orientação doutrinária. Nos primeiros anos, a voz da Teologia assembleiana eram os artigos dos suecos nos jornais Boa Semente, Som Alegre e Mensageiro da Paz, e na série Lições Bíblicas, com comentários exclusivamente dos missionários escandinavos nas primeiras décadas. Há artigos de brasileiros nesses periódicos, mas só eram publicados aqueles que passavam pelo crivo teológico dos missionários escandinavos. Além disso, os artigos de articulistas norte-americanos ou britânicos (notadamente Donald Gee, cujos estudos sobre dons espirituais foram preciosos para a nascente igreja no Brasil) eram escolhidos e traduzidos pelos missionários suecos antes de serem publicados nos periódicos.
Um detalhe dos anos 10, 20 e 30 é que havia certa igualdade entre os missionários escandinavos quanto à influência teológica. Gunnar Vingren, Samuel Nyström, Nils Kastberg, Otto Nelson, Nels Nelson e Joel Carlson se dividiam nessa tarefa, ora por meio de artigos, ora pelas ministrações de estudos bíblicos nas igrejas sob sua responsabilidade. Porém, de meados dos 30 até o início dos 40 (isto é, depois da partida de Vingren, ocorrida em 1932), o missionário Samuel Nyström passou a se destacar como o grande nome da Teologia Pentecostal no Brasil. Em muitos casos, questões doutrinárias eram dirimidas, até em reuniões de Convenção Geral das Assembléias de Deus, depois de ser ouvido Nyström.
Nyström foi o quarto missionário escandinavo pentecostal a aportar em solo brasileiro. Conhecido como o grande pregador e ensinador, sua vinda foi uma grande conquista para a obra no Brasil. Além do sueco, sua língua natal, falava o português e o inglês fluentemente, e tinha noções de grego e hebraico. Antes de liderar a Assembléia de Deus em São Cristóvão, no Rio, ele pastoreou a igreja-mãe em Belém do Pará, tendo inaugurado o primeiro templo assembleiano na capital paraense. Foi ele quem deu início ao movimento beneficente em favor das viúvas de pastores e é até hoje o líder que mais vezes foi eleito presidente da CGADB. Foram nove vezes (1933, 1934, 1936, 1938, 1939, 1941, 1943, 1946 e 1948). Sua influência era tão grande que a vinda de Nyström para a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, substituindo o pioneiro Gunnar Vingren, fez com que a Assembléia de Deus de São Cristóvão se tornasse uma espécie de centro da obra no Brasil, o que durou por muito tempo.
Lendo as páginas do jornal Mensageiro da Paz no final dos anos 30 e início dos 40, vemos que o nome de Nyström era quase onipresente nas escolas bíblicas de obreiros nos país. Intensamente requisitado, viajava o Brasil inteiro para ministrar estudos bíblicos concorridos, especialmente sobre Dispensacionalismo, os efeitos da obra de Cristo, o Corpo de Cristo e doutrinas bíblicas fundamentais. Nessa época, devido ao estrondoso sucesso de seus estudos, um deles virou livro, publicado pela CPAD: Jesus Cristo, Nossa Glória. Esta obra traz uma exposição sobre as doutrinas da Redenção, Santificação e Justificação. É impressionante o fato de que tenha vendido cerca de 5 mil exemplares em sua primeira tiragem nos anos 30, em uma época em que boa parte dos assembleianos não era afeita à leitura. A obra só seria reeditada nos anos 80.
Porém, a partir especialmente do final dos anos 30, começaram a aportar no país missionários da Assembléia de Deus dos EUA que, aos poucos, se notabilizaram na orientação teológica dos primeiros obreiros brasileiros.
No final dos anos 40 e início dos 50, despontam notadamente nas escolas bíblicas pelo país os nomes do missionários norte-americanos. Podemos dizer que inicia aqui o processo de cristalização da Teologia Pentecostal no Brasil, pois só com os missionários norte-americanos houve uma sistematização maior das doutrinas bíblicas na Assembléia de Deus.
Pesquisando as páginas do Mensageiro da Paz nos anos 40 e 50, notamos que os destaques nas escolas bíblicas agora eram os missionários norte-americanos Lawrence Olson, Leonard Pettersen, Teodoro Stohr e John Peter Kolenda, mais conhecido como JP Kolenda. Nesse período, do lado escandinavo, impõe-se apenas os nomes dos missionários Nels Nelson e Lars Erik Bergstén, e que aportou em plagas brasileiras no final da década do 40. Nesse período, Nyström já saíra de cena, de volta à Suécia.
Nels Nelson era presença constante nas escolas bíblicas de obreiros pelo país, mas, sem dúvida, Bergstén foi muito mais influente na formação da Teologia Pentecostal. Enquanto Nelson ministrava mais sobre Prática e Teologia Pastoral, Bergstén era mais sistemático e seus estudos abordavam todas as doutrinas bíblicas. Isso não significa dizer que Bergstén era rebuscado em seu discurso. Uma de suas marcas era a simplicidade com que ele abordava os pontos doutrinários, além do largo uso de citações bíblicas para explicar e reforçar o que estava ensinando. Sua biblicidade e a forma apaixonada como falava sobre a necessidade de os obreiros amarem a Bíblia para crescerem espiritualmente foram imensamente importantes para formações de gerações de obreiros assembleianos.
Vale lembrar ainda que se Nels Nelson não exercia uma grande influência teológica na Assembléia de Deus brasileira, tal qual Bergstén, sua influência como líder, porém, era muito forte. Nels Nelson foi o último grande líder sueco da Assembléia de Deus brasileira. Assim, Nelson e Bergstén foram os nomes que ainda mantiveram a influência escandinava em nosso país.
Nelson faleceu nos anos 60. A partir daí, a liderança da Assembléia de Deus brasileira tornou-se quase que totalmente autóctone. Excetuando os missionários Nils Taranger, no Rio Grande do Sul (falecido nos anos 90), Gustavo Arn Johansson, em Maceió (que liderou de 1963-1965) e alguns missionários noruegueses no Sul, não havia mais missionários escandinavos liderando igrejas. É verdade que alguns missionários norte-americanos chegaram a liderar igrejas em nosso país, mas por pouco tempo e sem exercer influência na liderança nacional, como exerciam Nelson e os demais escandinavos antes dele. A influência norte-americana passou a ser mesmo só na área teológica.
No período pós Nels Nelson, Eurico Bergstén passou a ser a única referência teológica escandinava. E que influência! Basta lembrar que é, até hoje, o maior comentarista de Lições Bíblicas da história da Assembléia de Deus brasileira. Foram mais de 30 revistas de Escola Dominical escritas em quase 40 anos. Era quase uma revista por ano, todas abordando variadas doutrinas bíblicas. Até sua morte, em 1999, a presença de Bergstén era constante em estudos bíblicos e conferências pelo país. Ao lado de Lawrence Olson, Bergstén foi, consciente ou inconscientemente, um dos grandes moldadores da Teologia Pentecostal no Brasil.
Ao falarmos isso, é importante dizer que não estamos dizendo que havia uma relatividade entre missionários suecos e norte-americanos na formação teológica dos obreiros brasileiros. Apenas reconhecemos que, ao lermos a história da Assembléia de Deus brasileira, percebemos que é nítida a aceitação natural desses nomes, por parte dos obreiros brasileiros, como formadores de sua identidade teológica.
SISTEMATIZAÇÃO DA TEOLOGIA
É também a partir dos anos 50 que são traduzidos para o português, pelos missionários norte-americanos, muitos livros de cunho teológico pentecostal vindos da outra América e que por muito tempo se tornaram a referência teológica dos obreiros brasileiros, sem contar os bons livros produzidos pelos próprios missionários norte-americanos aqui no Brasil. Destaque para Conhecendo as doutrinas da Bíblia e Através da Bíblia, de Myer Pearlman, traduzidos por Lawrence Olson. Essas duas obras tiveram grande sucesso e aceitação, principalmente a primeira, que vendeu mais de 100 mil exemplares e foi, durante muito tempo, a Teologia Sistemática dos obreiros pentecostais brasileiros.
Olson ainda produziria clássicos como O Plano Divino Através dos Séculos, que vendeu mais de 100 mil exemplares. Esse livro popularizaria no Brasil o Dispensacionalismo, adotado pela maioria dos obreiros brasileiros até hoje. Quem não se lembra daquele quadro colorido e retangular que ilustrava a história da humanidade segundo a Bíblia, de antes da criação do mundo até o final dos tempos? O quadro O Plano Divino Através dos Séculos pode ser encontrado em muitas casas de obreiros pelo Brasil até hoje.
Outro importante nome, tanto na tradução de obras em inglês como na produção de livros teológicos, é Orland Spencer Boyer (também missionário dos EUA), que além de escrever livros inspirativos, produziu a série Espada Cortante, que marcou época, instruindo muitos.
Porém, o maior destaque, ao lado de Conhecendo as doutrinas da Bíblia, é de iniciativa escandinava. Uma série de estudos bíblicos de Eurico Bergstén, que por muito tempo serviram como livro-texto da Escola Teológica das Assembléia de Deus no Brasil (Esteadeb), foi transformada posteriormente em livro: Teologia Sistemática (CPAD). Está é a única obra de Teologia Sistemática pentecostal produzida pela Assembléia de Deus no Brasil até a presente data. Apesar de sintética, foi a mais aprofundada e sólida tentativa de organizar e sistematizar a Teologia pentecostal em um único compêndio.
Nos anos 90, a CPAD publicaria Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal, editada por Stanley Horton (maior expoente da Teologia Pentecostal nos EUA) e escrita por 18 teólogos da Assembléia de Deus norte-americana. Em seguida também foi lançado Doutrinas Bíblicas, do teólogo William Menzies, também dos EUA. Porém, a de Bergstén e a editada por Horton são as grandes referências teológicas da Assembléia de Deus brasileira hoje. Depois dessas duas obras, a de Pearlman ficou um pouco esquecida.
Finalmente, completando a tríade literária que serve hoje de referência para a Teologia da Assembléia de Deus brasileira, foi lançada, também nos anos 90, a Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD), com quase um milhão de exemplares vendidos só no Brasil. As notas são de autoria do pastor Donald Stamps, missionário norte-americano em nossa país.
Mas, novas boas notícias chegarão em breve. Depois de 95 anos de Assembléia de Deus, a CPAD começa o projeto de elaboração da primeira Teologia Sistemática Pentecostal genuinamente brasileira, escrita por teólogos da Assembléia de Deus em nosso país. Desejamos uma boa recepção para essa obra!
INSTITUTOS BÍBLICOS
O passo mais significativo dos missionários norte-americanos para a formação teológica dos obreiros brasileiros foi, sem dúvida, a polêmica criação de institutos bíblicos. Polêmica por não ter sido aceita inicialmente pelo obreiros brasileiros, satisfeitos apenas com o modelo das escolas bíblicas de curta duração, implantado pelos suecos. Anuais, as escolas bíblicas de obreiros duravam de duas semanas a um mês, estudavam temas diferentes a cada ano e até hoje fazem parte da tradição assembleiana no Brasil.
A principal crítica que se fazia aos institutos bíblicos é a de que eram “fábricas de pastores”. Apesar de todas as críticas, os norte-americanos levaram adiante seu projeto. Em 1959, com o apoio de JP Kolenda, o jovem pastor João Kolenda Lemos e sua esposa, a missionária norte-americana Ruth Dorris Lemos, fundariam o Instituto Bíblico da Assembléia de Deus (Ibad) em Pindamonhangaba (SP). Em seguida, em 1962, Lawrence Olson funda o Instituto Bíblico Pentecostal (IBP) no Rio de Janeiro. Olson e Orland Boyer ainda municiaram os obreiros brasileiros com belas obras teológicas de suas lavras a partir desse período. Olson ainda tinha a seu favor o programa Voz da Assembléia de Deus, com mensagens bíblicas enriquecidas de informações e curiosidades que despertavam nos ouvintes o desejo de se aprofundarem no conhecimento bíblico.
Vale lembrar que porque esses dois institutos foram fundados sem o apoio da maioria dos obreiros brasileiros, isso fez deles um grande desafio. Foi só nos anos 70 que iniciou-se um processo de aceitação dos institutos. O Ibad e o IBP só foram reconhecidos oficialmente pela Convenção Geral das Assembléia de Deus no Brasil em 1973 e 1975, respectivamente. É nesse período que nascem várias outras escolas teológicas (em forma de instituto) fundadas por obreiros brasileiros, e a Escola de Ensino Teológico das Assembléias de Deus (Eetad), fundada pelo missionário norte-americano Bernhard Johnson, em Campinas (SP).
Hoje, vivemos uma conseqüência clara disso. É interessante notar que os grandes teólogos nacionais da Assembléia de Deus brasileira só começaram a despontar mais a partir dos anos 70. Não que antes dos anos 70 não tenham havido nomes de destaque na Teologia da Assembléia de Deus entre os nacionais. Basta lembrar que é nos anos 60 que começa a aparecer o pastor e teólogo Antonio Gilberto, que veio a notabilizar a partir de 1974, com a criação do Curso de Aperfeiçoamento de Escola Dominical (Caped). É dele muitos best-sellers, como o Manual de Escola Dominical, lançado em 1974 e que já vendeu cerca de 150 mil exemplares. E que dizer do pastor Estevam Ângelo de Souza? É também outro grande exemplo. Porém, notadamente, só a partir dos anos 70 é que o leque aumenta. Atualmente, há vários nomes, e isso tem muito a ver com a mudança de visão em relação à importância dos seminários e institutos bíblicos, ocorrida à pouco mais de 30 anos.
DIFERENÇAS ENTRE O ESTILO ESCANDINAVO E O NORTE-AMERICANO
Não há muita diferença entre a Teologia pentecostal escandinava e a norte-americana. A diferença está mesmo nos estilos do que no conteúdo. Os escandinavos preferiam mais o sistema de escolas bíblicas informais e anuais de curta duração (daí a inspiração para criar as tradicionais escolas bíblicas de obreiros no Brasil). Os norte-americanos preferiam os institutos bíblicos, com o ensino formal das Escrituras e cursos de longa duração como as igrejas evangélicas tradicionais já faziam há muito tempo. Nos EUA, era comum o obreiro, antes de ser ordenado ao ministério, passar, em média, quatro anos em um instituto bíblico. Já na Suécia, só havia, na época, as escolas bíblicas de verão em Nyem (cidade sueca), uma espécie de curso intensivo de três meses para missionários e obreiros. Os alunos recebiam certificados, mas o curso era mais informal. Porém, ninguém era ordenado ao ministério ou enviado ao campo missionário pela Igreja Filadélfia, liderada pelo pastor Lewi Pethrus, sem antes passar por esse curso.
Com exceção de Daniel Berg e Gunnar Vingren, que foram pioneiros e se filiaram à Igreja Filadélfia depois de iniciada a obra no Brasil, todos os outros missionários escandinavos que aportaram em nosso país passaram por esse curso. Berg não estudou Teologia formalmente. Vingren, antes de vir ao Brasil, fora ordenado pastor pela Convenção Batista dos Estados Unidos. Para isso, formou-se em Teologia em um instituto bíblico e estagiou pastoreando uma Igreja Batista Sueca nos EUA. Quando estava pleiteando ser enviado como missionário à Índia, foi batizado no Espírito Santo, encontrou-se com Berg e Deus mudou os seus planos. Ainda bem!
Devido às diferenças entre a preparação teológica dos missionários escandinavos e norte-americanos, o estilo de ensino adotado por eles no Brasil era diferente. Analisando, por exemplo, os artigos doutrinários de um e de outro grupo no jornal Mensageiro da Paz, notamos que os suecos eram mais práticos, enquanto os norte-americanos eram mais sistemáticos. E, ao que parece, os obreiros brasileiros gostavam mais da simplicidade escandinava do que do estilo norte-americano. Só a partir dos anos 50 é que os brasileiros passaram a simpatizar mais com os doutrinadores norte-americanos, especialmente pelas ministrações bíblicas saborosas de nomes como Olson, JP, Stohr e Pettersen.
Outro detalhe: tanto os escandinavos quanto os norte-americanos aplicavam bem a hermenêutica, mas os norte-americanos eram um pouco mais voltados a exegese de textos bíblicos. O único missionário escandinavo que se aplicava no uso da exegese era Samuel Nyström. Aliás, Nyström era considerado pelos brasileiros como “o maior ensinador das Escrituras” no nascente Movimento Pentecostal em nosso país.
Interessante que os missionários escandinavos não ensinavam o Dispensacionalismo, que era a “moda” teológica da época, uma maneira mais prática de os teólogos interpretarem os fatos bíblicos. A única exceção foi Nyström. Até onde se sabe, ele foi o primeiro a ensinar o Dispensacionalismo para a Assembléia de Deus brasileira antes mesmo dos norte-americanos. Porém, coube a Lawrence Olson popularizar o Dispensacionalismo no Brasil, principalmente por meio de seus livros e do Instituto Bíblico Pentecostal.
É curioso ver que o Dispensacionalismo não está mais em voga nos Estados Unidos. A maior parte da Assembléia de Deus norte-americana não mais usa esse sistema de interpretação das Escrituras, que, é preciso dizer, no caso assembleiano, tinha uma pequena diferença do Dispensacionalismo clássico: os assembleianos sempre deixaram de lado a separação entre a Igreja e Israel, o que era o ponto-chave do Dispensacionalismo.
Hoje, a Assembléia de Deus norte-americana está mais voltada para “o estudo das aplicações teológicas e missiológicas do Reino de Deus”. Uma análise precisa dessa mudança de foco está em Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal, nas páginas 32 e 36.
Outro ponto a ser frisado é que os missionários escandinavos, por chegarem aqui primeiro, gastaram mais tempo procurando estabelecer as bases teológicas da igreja brasileira e reforçando as doutrinas bíblicas distintivas do pentecostalismo, muito atacadas pelas igrejas tradicionais nas primeiras décadas. A maior parte dos textos doutrinários dos primeiros 30 anos do Movimento Pentecostal brasileiro era de caráter apologético, de defesa das doutrinas bíblicas pentecostais. O restante era apenas sobre pontos doutrinários básicos: Salvação, Santificação e Vinda de Jesus. Por isso, quando os missionários norte-americanos vieram, corroboraram essas bases, mas, sobretudo, erigiram um edifício sobre elas, aprofundando esses pontos doutrinários (especialmente a Escatologia Bíblica) e salientando outros, menos abordados até então (como, por exemplo, a Doutrina da Trindade, do Pecado Original e dos Anjos).
O missionário Eurico Bergstén se destaca nesse período justamente porque também foi além das bases. Por exemplo: ao falar da Salvação, Bergstén expunha e destrinchava as doutrinas bíblicas da expiação, justificação, adoção e glorificação (o que Nyström, nos anos 40, começou a fazer timidamente), e a questão da perseverança dos santos, da segurança da Salvação. Aliás, o mal entendimento desse último ponto foi o que levou a uma das primeiras cisões da história da Assembléia de Deus.
No início dos anos 30, nasceu no Nordeste do Brasil a Assembléia de Cristo, formada por obreiros nacionais, entre eles Manoel Higino de Souza, que passaram a crer que “uma vez salvo, salvo para sempre”. É que os missionários suecos não se preocupavam em falar da Doutrina da Predestinação e da Segurança da Salvação, até que um obreiro nacional leu um panfleto calvinista sobre esse assunto e começou a ensinar que aqueles que aceitam a Cristo não têm possibilidade de perder a Salvação. Ora, os escandinavos eram arminianos (os missionários da Assembléia de Deus norte-americana, que chegariam depois, também). O que foi que aconteceu? Tentaram convencer Higino do contrário, mas em vão. Por nunca terem ensinado sobre esse assunto, quando a divergência teológica surgiu, não puderam saná-la eficientemente. A maioria esmagadora apoiou os missionários suecos, mas a cisão aconteceu. Se houvesse um ensino preventivo sobre esse ponto doutrinário, talvez essa cisão nunca tivesse ocorrido.
É só a partir dos 50 que os estudos bíblicos ganham mais densidade e profundidade. A criação de institutos bíblicos foi a conseqüência direta disso. Os obreiros brasileiros precisavam se aprofundar mais no conhecimento bíblico.
Se os escandinavos fizeram um bom trabalho de base e de estabelecimento da identidade pentecostal, os norte-americanos fizeram um bom trabalho preventivo em relação a modismos. Antes que determinadas doutrinas que já eram populares nos EUA ganhassem força no Brasil, eles preveniam os obreiros sobre elas. Por exemplo, na Convenção Geral de 1962, em Recife, são o missionário Lawrence Olson e o pastor Raymond Carlson, então presidente do Instituto Bíblico da Assembléia de Deus em Minessota (e que depois seria líder do Concílio Geral das Assembléias de Deus nos EUA) que previnem os obreiros, em estudo bíblico, sobre os perigos do ecumenismo, uma onda nova na época. Ao final daquela convenção, Olson, Bergstén e o pastor Alcebíades Vasconcelos, representando os obreiros brasileiros, assinam um documento, em nome da CGADB, contra o ecumenismo.
Ainda havia os estudos dos norte-americanos sobre os erros do evolucionismo, o liberalismo teológico, a Teologia da Libertação etc. Como reflexo desse ensino, surgiram muitos bons livros de autores nacionais sobre esses assuntos nos anos seguintes. O pastor Abraão de Almeida, por exemplo, escreve nos anos 80 sua Teologia Contemporânea (CPAD), com prefácio de Lawrence Olson. Nascia a reflexão teológica, estimulada pelos norte-americanos.
Outro exemplo: a febre pela Escatologia Bíblica no Brasil foi encetada pelos norte-americanos e incentivada pela conjuntura internacional - a Guerra Fria. Nesse período, depois da reedição de O Plano Divino Através dos Séculos nos anos 70 e do lançamento do polêmico Alinhamento dos planetas (1980), ambas obras de Olson, surgiu uma demanda decorrente do interesse despertado dos crentes por Escatologia. É quando surgem muitas obras teológicas em profusão sobre o assunto, como as dos pastores Antonio Gilberto, Abraão de Almeida e Severino Pedro. O detalhe é que a visão escatológica de muitas dessas obras era importada da visão escatológica norte-americana. A significativa obra Israel, Gogue e o Anticristo (CPAD), de Abraão de Almeida, que marcou época e vendeu mais de 50 mil exemplares, é um exemplo. As interpretações sobre a profecia contra Gogue (Ezequiel 38), vista como uma referência à Rússia e à China, são uma influência clara da Escatologia norte-americana. Os escandinavos não se preocupavam com esses pormenores. Sua Escatologia era menos detalhista e pouco especulativa. Preocupava-se mais com o entendimento do essencial.
ÚNICO E RELATIVO CASO DE DIVERGÊNCIA
E quanto às discrepâncias de conteúdo entre a Teologia pentecostal escandinava e a norte-americana?
Como já ressaltei, foi só depois dos anos 50 que o estudo das doutrinas bíblicas foi mais aprofundado na Assembléia de Deus brasileira. Assim, se houvesse alguma discrepância teológica entre os escandinavos e norte-americanos, ela surgiria a partir de esse período, pois é na exposição dos detalhes que surgem as diferenças. Porém, o que se via era uma concordância mútua. A única diferença encontrada, mas não muito explorada, foi quanto à Doutrina da Criação do Universo. Aqui, sim, encontramos a única divergência teológica concreta entre escandinavos e norte-americanos. Mesmo assim, relativa.
Eurico Bergstén, em sua Teologia Sistemática, ensinava a Teoria da Recriação da Terra (também chamada de Teoria da Lacuna), que diz que entre Gênesis 1.1 e 1.2 há um interregno de tempo, onde teriam ocorrido a queda de Satanás e o caos no Universos. A Terra, que teria sido criada perfeita antes de Lúcifer cair, teria ficado, após a queda do ser angelical, sem forma e vazia. Logo, o relato que vai de Gênesis 1.2 em diante seria não o da criação da Terra, mas da recriação. Isso pode ser visto nas páginas 49 e 52 de sua obra. “A Terra foi restaurada em seis dias”, assevera Bergstén.
Ao que parece, nem todos os missionários norte-americanos simpatizavam muito com essa teoria. Lawrence Olson, porém, seria uma grande exceção, o que relativiza essa discrepância. Ele ensinava o mesmo, como pode ser visto nas primeiras páginas de O Plano Divino Através dos Séculos. Mas, a obra Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal, escrita pelos Teólogos da Assembléia de Deus norte-americana, rechaça essa teoria, como pode ser visto nas páginas 232 a 235. “A Teoria da Lacuna apresenta várias fraquezas”, arremata conclusivamente os pastor e teólogo Timothy Munyon.
Como vimos, as diferenças eram muito pequenas. A Teologia era praticamente a mesma em todos os pontos. E isso foi muito bom, porque fortes divergências teológicas criariam cismas. Se hoje a Assembléia de Deus é minimamente unida e consolidada em sua identidade teológica, deve isso à influência desses nobres missionários escandinavos e norte-americanos, que deram as suas vidas pela evangelização e estabelecimento da obra de Deus em nosso país.
Por, Silas Daniel - Ministro do Evangelho, jornalista, conferencista e autor dos livros A Sedução das Novas Teologias, Habacuque - a vitória da fé em meio ao caos e História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Todos pela CPAD.
Manual do Obreiro (CPAD) - 2006.
1 de março de 2009
O POVO GOSTA! Pronto: está no altar!! [grifo meu]

“...com a boca professam muito amor,
mas o coração só ambiciona lucro” (Ez 33.31)
Espera-se que empresários, publicitários e comerciantes, possuam um faro apurado para descobrir o que apetece o gosto da clientela. Faz parte do “tino” comercial. Há muitas coisas que o povo gosta, e pode lucrar quem percebe o gosto popular. Foi uma longa sucessão de erros e acertos que permitiu à Coca-Cola encontrar a fórmula ideal que agradasse totalmente a seus consumidores, levando-os hoje a comprar milhões de unidades anualmente em todo o mundo.
Descobrir a preferência popular também tem sido a preocupação de líderes, pastores e ministérios que levam o nome de Jesus. O problema aqui não é o sucesso que eles obtêm, mas o fato de terem adaptado a fórmula (leia-se: Evangelho), ao gosto popular. O que o povo gosta? Então é isso que será oferecido: às favas a ética, a fidelidade à Palavra, os ensinamentos de Cristo, as doutrinas neotestamentárias, ou a Verdade... o que importa é que o povo seja um consumidor satisfeito e feliz.
Vejamos algumas estratégias utilizadas ao arrepio da Palavra, mas bem ao gosto do poviléu:
1) Pode parecer coisa de somenos importância, mas até o nome da igreja é pensado para atingir a preferência popular. Quando ela tem um nome que a identifica com o bairro, tipo “Igreja X do Jardim Robrú”, não cai bem aos ouvidos dos fiéis. É preciso que o nome mostre grandiosidade, pois embora seja gente humilde, há um gosto secreto pelo pomposo; possuem localização periférica, mas sonham em fazer parte de algo muito maior. Por isso os líderes sintonizados com o gosto popular batizam seus ministérios como sendo de ordem “Mundial” ou ao menos “Internacional”, e até mesmo “Universal”, mesmo antes de sair da periferia. Por que agem assim? O povo gosta.
2) Ao convidar pastores para participar de suas festividades, eles precisam ser famosos e possuir um currículo de “cruzadas de milagres”. Embora Jesus tenha dito que dos homens nascidos de mulher não havia ninguém maior que João Batista, este, entretanto, nunca fez um milagrezinho sequer (Jo 10.41). Logo, ninguém convidaria João para um evento. O povo gosta de tudo que é glamoroso; um convidado que chega de ônibus ou num carro vazando óleo não é boa propaganda do ministério, mas se ele surgir num reluzente automóvel e muitos assessores esperando, isso significa unção e poder. O povo vibra.
3) Nossos patrícios gostam de coisas fantásticas: menina-pastora de 6 anos, homem que morreu e voltou, demônios que dão entrevista, ex-bruxo, ex-guru, ex-vedete.... não basta ter vivido os erros comuns de todos os mortais: precisa ter errado muito. O povo se encanta.
4) Nossa gente dá muito valor a rituais. Se a Bíblia ensina que basta pedir a Deus com fé simples e orar ao Senhor assentado solitário em sem quarto, provavelmente não farão. Mas se o guia espiritual pede para acender velas, escrever num papel, queimar na fogueira e beber água orada, ele o faz. O povo adora fórmulas.
5) Tornou-se comum nas programações das rádios surgir em meio às palavras do pregador um “dekantalabachúria” ou um “ripalabassuriondera”. O que é isso? É uma tentativa de demonstrar “intimidade” com o Espírito, como se fosse o dom de glossolalia. Obviamente trata-se de uma farsa, posto que contradiz todas as normativas que o apóstolo Paulo faz do assunto em I Coríntios 14, ou seja: [1] “quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus”, (portanto não edifica a outrem); [2] “se, com a língua não disserdes palavra compreensível, como se entenderá?”, (com isso banalizam o dom divino e jogam palavras ao vento); [3] “o que fala em outra língua deve orar para que a possa interpretar... não havendo fique calado” (o que nunca acontece, pois são desobedientes); [4] “se puserem a falar em outras línguas na presença de incrédulos, não dirão que estais loucos?” (sim, dirão, e provavelmente estão). Tudo isso, na verdade é uma exibição de imaturidade espiritual.... mas o povo admira tudo o que não compreende.
6) Jamais pregam sobre pecado, arrependimento, santidade, ou viver em comunhão. Isso desagrada a clientela. Seus temas recorrentes são: vitória, prosperidade, conquista, cura, vitória novamente, unção, cabeça e não cauda, pisando os inimigos, e outra vez vitória. É como se a pregação bíblica resumisse a isso. Mas o povo deseja ouvir as mesmas coisas semanalmente.
Jesus, que não ia atrás da opinião do povo, nunca correu atrás de ninguém melhorando a oferta, nunca regateou as condições para participarem do Reino, nunca fez liquidação para alguém entrar no céu ou alargou o caminho estreito para facilitar-lhes a vida. Ao contrário, a partir de certo momento de seu ministério a multidão começou a abandoná-lo (Jo 6.66), escandalizada com suas palavras. Na verdade, a multidão sempre foi um impedimento para que muitos chegassem a Ele (vide a mulher do fluxo de sangue e o cego de Jericó). Certa vez Jesus havia se “retirado por haver muita gente naquele lugar” (Jo 5.13). Desconfio que Ele continua fazendo o mesmo hoje.
Seguir as inclinações do povo é perigoso: a massa anseia por espetáculo, não verdade. A massa se enfada rapidamente, daí a necessidade de atrações permanentes. Deus nos livre de fazer parte de um rebanho de tolos! E Deus nos proteja dos guias espirituais interessados em fazer a vontade do rebanho.
Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br
fonte:http://libertosparapensar.blogspot.com/
16 de dezembro de 2008
A Morte do Púlpito

Por Gutierres Siqueira
A igreja evangélica brasileira vive uma tragédia: a morte do púlpito. Nunca na história do protestantismo houve tanto desprezo pela pregação cristocêntrica, preparada com esmero e preocupada com a correta interpretação das Escrituras. O púlpito tem sido substituído pelo altar dos “levitas” ou para os ”sacrifícios” em dinheiro dos mercenários mercantilistas. A “pregação” da Palavra é, hoje, conceituada como qualquer um que sobe na plataforma e começa a falar ou gritar.
Talvez você, lendo esse texto, pense: - “Na minha igreja a pregação é sempre um espaço grande e recebemos visitas de diversos pregadores”. Esse artigo quer alertar que não basta um tempo grande para a pregação e nem que a plataforma esteja cheia de homens engravatados; antes é necessária a avaliação da qualidade dessa pregação. A pregação precisa ser avaliada, assim como fazia os cristãos bereanos, que por sua nobreza, comparam as homilias de Paulo com as Sagradas Escrituras.
Quais são as causas da “morte do púlpito” no evangelicalismo moderno?
A) Espiritualidade em baixa é igual à pregação sem qualidade.
A pobreza das pregações é evidente nesses últimos dias, pois isso é conseqüência direta da pobreza na vida cristã, pois como dizia Arthur Skevington Wood: “Leva-se uma vida inteira para preparar um sermão, porque é necessária uma vida inteira
para preparar um homem de Deus”. Enquanto a espiritualidade da Igreja estiver em baixa, a pregação, por mais espiritual que ela pareça ser, não passará de palavras jogada ao vento. Não basta uma pregação erudita, mas a erudição deve ser acompanhada de contrição, humildade e oração, pois bem escreveu E. M. Bounds: “Dedique-se ao estudo da santidade de vida universal. Sua utilidade depende disso. Seus sermões duram não mais do que uma ou duas horas; sua vida prega a semana inteira.”
Hoje existem muitas igrejas que oram “bastante”, são campanhas atrás de campanhas, mas essas orações não passam de busca “dos próprios deleites” ou de “determinações” de bênçãos. Ora, a oração sem a busca da face de Deus é uma característica do evangelicalismo contemporâneo. Uma igreja que ora errado, logo terá pregadores pobres.
B) A falta de preparo para pregar.
Erudição, esmero e homilética não são inimigos da espiritualidade. Um mito vigente na igreja brasileira é que quem se prepara muito para pregar, terá uma pregação “não ungida”. Isso é mera desculpa de pregador preguiçoso. Você, leitor, já deve ter visto alguém dizer: - “Quando cheguei aqui não sabia o que ia pregar, mas assim que subi nesse altar o Espírito Santo me revelou outra Palavra” ou “Eu não preparo pregação, o Espírito de Deus me revela”... São frases irresponsáveis e brincam com o Espírito Santo, atribuindo a Ele sua preguiça de passar várias horas em estudo e oração para pregar a Palavra.
Hoje, pregar com esboço em papel é quase um pecado em muitas igrejas; alguns olham com “cara feia” para os que levam algo escrito em sua homilia. Será que não sabem que um dos sermões mais impactantes da história, foi literalmente lido pelo pregador. Esse sermão era “Pecadores na mão de um Deus irado”, que Jonathan Edwards pregou em 08 de Julho de 1741 na capela de Enfield. O biógrafo de Edwards, J. Wilbur Chapman , relatou:
Edwards segurava o manuscrito tão perto dos olhos, que os ouvintes não podiam ver-lhe o rosto. Porém, com a continuação da leitura, o grande auditório ficou abalado. Um homem correu para a frente, clamando: Sr. Edwards, tenha compaixão! Outros se agarraram aos bancos, pensando que iam cair no Inferno. Vi as colunas que eles abraçaram para se firmarem, pensando que o Juízo Final havia chegado.[1]
C) Ter uma visão pragmática sobre a pregação.
Para muitos, uma pregação só é válida se houver resultados. As pessoas não querem saber se o conteúdo da pregação é biblico ou herético, mas preferem esperar pelos resultados propagados pelo pregador. A primeira motivação dos pragmáticos é buscar a praticidade, portanto o pragmatismo é casado com o imediatismo, onde tudo tem quer ser aqui e agora.
O conceito de pregação “ungida” é bem pragmática, pois para boa parte da comunidade evangélica, a boa pregação tem que envolver o emocional, nesse contexto nasce frases do tipo “crente que não faz barulho está com defeito de fabricação”. Se não houver choro, gritos, pulos ou outras manifestações “espirituais”, a pregação perde o seu valor para aos cristãos atuais.
Pregadores pragmáticos gostam de ver seus ouvintes interagindo exageradamente no culto. É constante dos pregadores mandarem as pessoas glorificarem e até falar em línguas. Nesses cultos a justificativa para essas ordens é que “quando a glória da Igreja sobe, a glória do céu desce”. Não há respaldo bíblico para esse tipo de pensamento que é passado como algo bíblico. A emoção e as experiências fazem parte da vida cristã, mas não devem normatizar a liturgia ou direcionar os crentes, pois os verdadeiros cristãos tem a Palavra de Deus, e somente Ela, como regra de fé e prática.
D) Pastor-professor X pregador-ator
Eis o dilema existente no evangelicalismo moderno. O pastor-mestre foi substituído pelo pregador-carismático-ator. O mestre que orientava a sua congregação nas Sagradas Letras, sendo um homem de estudos e contemplativo, era característico de piedosos servos de Deus, como Charles Spurgeon, Jonathan Edwards, D. L. Moody etc.
O púlpito tem sido morto pelo estrelismo de pastores-atores, que confundem a plataforma da igreja com um palco para entretenimento, são pessoas que pregam o que a congregação quer ouvir e fazem de seus carismas uma imposição de sua pessoa. Quem estuda a história da igreja, verá que os piedosos servos de Deus, da Reforma as Grande Despertamento do século 18, eram homens de grande interesse pela pregação expositiva, onde o texto fala por si só. A partir do século 19, os sermões são cada vez mais temáticos e os pregadores mais articulados no estrelismo.
O Movimento Pentecostal peca, e gravemente, em não valorizar os sermões bem preparados e articulados, ungidos pelo Espírito Santo, para edificação da congregação. Em uma piedade aparente, muito exaltam a ignorância como virtude, justificando os sermões artificiais, sem profundidade e recheados de chicles, modismos e até heresias.
Referência Bibliográfica:
1. BOYER, Orlando. Heróis da Fé. 15 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p. 03.
O AVANÇO DOS CRENTES - CAPA da revista VEJA em 1981- Será que mudamos em algo?

O avanço dos crentes
Sob a luz do Espírito Santo e
com um código que proíbe o fumo
e a bebida, o pentecostalismo já
converteu 8,5 milhões de brasileiros
O alagoano Manoel Raulino do Nascimento, de 46 anos, estivador no porto de Santos, fumava e bebia regularmente até a semana passada, quando ouviu a voz do missionário Manoel de Mello, fundador da Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo, num disco em que relata sua peregrinação por Jerusalém. Um brilho nos olhos, Nascimento avançou sobre um maço de cigarros, jogou-o sobre as brasas do fogão a lenha, agarrou a garrafa de cachaça sempre ao alcance da mão e entornou na pia seu conteúdo. Ele ficara impressionado sobretudo com a descrição do túmulo de Jesus Cristo, visitado pelo missionário durante os sete dias de jejum e oração a que se submeteu em Jerusalém. E resolveu incorporar-se ao rebanho de 8,5 milhões de pentecostais, ou "crentes", espalhados pelo país, segundo cálculos da Sociedade Bíblica do Brasil e da Confederação Evangélica do Brasil.
A conversão de Nascimento tornará algo mais árida sua vida terrena: ele terá de vestir o apertado figurino usado por seus companheiros de fé. Os pentecostais - que devem seu nome ao dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo teria aparecido aos apóstolos na forma de línguas de fogo - não podem dançar, não vão ao teatro nem freqüentam sessões de cinema. Também não usam roupa de banho, lêem quase que exclusivamente livros religiosos, rezam pelo menos duas vezes ao dia e entregam à seita a que pertencem o dízimo - 10% seus rendimentos mensais. São muito severos na educação dos filhos e de um rigor absoluto no que se refere à fidelidade conjugal. Enfim, só admitem o sexo como instrumento de procriação.
Apesar dessa escassez de atrativos mundanos, o número de pentecostais tem acusado saltos espantosos nas últimas décadas - e é provável que os cálculos disponíveis no momento sejam amplamente superados pelos resultados do censo de 1980. Afinal, só a Igreja Evangélica Assembléia de Deus, a maior das diferentes seitas pentecostais catalogadas no país, pastoreia 2,5 milhões de fiéis. E a Igreja O Brasil para Cristo, a segunda em importância, guarda na sede nacional, em São Paulo, um fichário com 1 milhão de fiéis.
Ao pé da letra - Essa imensa família descende do minguado grupo de evangelizadores americanos que, em 1910, desembarcaram no município paranaense de Santo Antônio da Platina. " O povo achava que a gente não tinha a cabeça no lugar", lembra Maria Silveira Mascaro, filha de Felício Mascaro, o primeiro cidadão brasileiro convertido ao pentecostalismo. "Eles eram exóticos demais para preocupar as igrejas protestantes tradicionais", explica Waldo César, autor de "Urbanização e religiosidade popular" (Revista Vozes, n.º 7). Compõem o protestantismo tradicional - detectado no Brasil há 150 anos, a partir sobretudo da imigração alemã - batistas, presbiterianos, metodistas, episcopais, congregacionais e luteranos. Entre estes figura, por exemplo. o ex-presidente da República Ernesto Geisel.
Os crentes se consideram protestantes, mas diferem de seus irmãos de credo principalmente por interpretar a Bíblia ao pé da letra e entender que tudo o que ocorre de bom no mundo é obra do Espírito Santo. Os pentecostais acreditam na iminência da vinda de Jesus Cristo ao planeta, "para o estabelecimento de um reinado de 1.000 anos na Terra", e criticam o que chamam de "mundanismo" dos demais protestantes. Sua pregação parece ter dado certo desde o começo: dez anos depois do desembarque dos pioneiros evangelizadores em Santo Antônio da Platina, os pentecostais já haviam erguido cinqüenta templos em solo brasileiro.
A semente caiu em solo fértil. Os templos eram 267, em 1930; 912, em 1940; 1.929, em 1950; 4.583, em 1960; e 11.118 em 1970. Hoje, há 26.000 templos no país, mais de 1.000 deles em São Paulo. Nesse mesmo perímetro urbano da maior cidade do maior país católico do mundo, o Vaticano comanda só 353 paróquias e 400 igrejas e capelas. Os templos pentecostais são freqüentemente acanhados, quase sempre pintados de azul e branco, e ficam engastados na periferia das cidades. Multiplicam-se num processo semelhante ao da divisão celular: um pastor com espírito de liderança e algum carisma abandona uma igreja já consolidada, cuja liderança dividia com outros pastores, e funda seu próprio templo. Muitas prosperam também economicamente. A Igreja de Nova Vida, uma pequena seita, ergueu no bairro carioca de Botafogo um templo de sete andares, com refrigeração interna, mármore italiano e vagas na garagem para cinqüenta carros.
Empregadas exemplares - Em 1930, os pentecostais representavam apenas 9,5% dos protestantes brasileiros. Um recente levantamento do sociólogo Francisco Cartaxo Rolim, da Universidade Federal Fluminense, constatou que eles somam agora 70% desse total. Rolim descobriu, também, que a maioria dos convertidos não foi capturada ao protestantismo tradicional. Ele encontrou 57% de ex-católicos, 4% de antigos umbandistas, 3% de batistas, 2% não tinham religião anterior, 1% haviam sido espíritas e o resto saíra do próprio protestantismo. "Os pentecostais são, geralmente, pessoas que migraram do campo para a cidade", diz Haroldo Murá, 41 anos, editor do jornal católico A Voz do Paraná, de Curitiba, e um estudioso da religiosidade popular. "Na cidade, o camponês perde os amigos, os pontos de apoio, larga os tênues vínculos que o uniam ao catolicismo", pondera Murá. "Precisa de calor humano, de solidariedade. Assim, torna-se presa fácil dos valores pentecostais."
Convertidos à nova fé os crentes ampliam, no plano espiritual, a esperança de salvação e, no material, a chance de conseguir certos empregos. "As empregadas crentes são mais recatadas, não têm vícios, não saem à noite, não faltam ao serviço", depõe Lucy Dias de Lima, proprietária da Lovelucy, uma das mais procuradas agências de empregadas domésticas de São Paulo. Mas os templos das seitas vão progressivamente deixando de ser freqüentados apenas por vidas apagadas que subitamente se acendem com a luz divina. A Terceira Igreja do Evangelho Quadrangular, em Curitiba, hasteada no bairro de Água Verde, tipicamente de classe média, tem convertido profissionais liberais, médicos, advogados, engenheiros, funcionários públicos graduados e, de uns tempos para cá, juízes de Direito.
Um desses magistrados é Altair Costa Souza, 51 anos, cinco filhos, que acaba de se aposentar como titular da 4ª Vara da Família de Curitiba. Filho de católicos, ele se converteu ao pentecostalismo ao visitar ocasionalmente o templo da Igreja do Evangelho Quadrangular. Em 1980 foi sagrado pastor e, no início deste ano, abriu seu próprio templo. "Depois que aceitei Jesus como único e suficiente salvador", diz Souza, "nunca me faltou a paz." Ex-freqüentador de colunas sociais, o juiz hoje anda com uma Bíblia permanentemente a tiracolo e ganhou fama no Tribunal de Justiça por conseguir a maior média de reconciliações entre casais prestes a separar-se.
Animadores de auditório - Magistrados, de qualquer forma, são ainda poucos entre os crentes, um universo em que tanto fiéis como pastores têm geralmente modestíssima posição social. Aos pastores não se cobra diploma algum - basta que saibam ler e escrever. O resto fica por conta do Espírito Santo, que faz seus devotos compreenderem tudo quanto está dito na Bíblia e compensa eventuais deficiências culturais. Tecnicamente, o pastor figura no topo da hierarquia pentecostal, alguns degraus acima de presbíteros, diáconos e auxiliares leigos. O pastor goza de autonomia quase completa em seu templo e só está impedido de trocar-lhe a denominação, vendê-lo ou consagrar ministros. Essas são atribuições exclusivas da congregação estadual de cada seita, uma espécie de colégio de pastores. A liturgia tem pouca rigidez, circunstância de que se valem os pastores para comportar-se à maneira de animadores de auditório. São diálogos sempre previsíveis:
- Se Jesus é por nós... - sugere o pastor.
- Quem será contra nós? - devolve o rebanho.
Estabelecida a empatia, pastores e fiéis protagonizam surpreendentes happenings pentecostais. Falam línguas estranhas (o dom da "glossolália", conferido aos apóstolos em Pentecostes), às vezes inexistentes e ininteligíveis. Jogam-se no chão, incorporam e desincorporam demônios, e, sobretudo, contracenam em curas milagrosas.
Prioridade para os ciganos - Bíblia nas mãos, pregadores pentecostais se incorporam diariamente à paisagem das praças mais movimentadas das grandes capitais - os homens vestindo invariavelmente paletó e gravata, as mulheres sem qualquer pintura e metidas em vestidos fora de moda. Depois das praças, estão nos presídios os palcos favoritos dos pregadores. Até há dois anos, o ex-presidiário Sebastião Oscar, convertido à Igreja do Evangelho Quadrangular quando ainda estava na cadeia, era o único pregador pentecostal a visitar os 900 presos da Penitenciária de Piraquara, a 25 quilômetros de Curitiba. Agora, divide seu rebanho com cinco pastores de seitas concorrentes.
Os ciganos também têm prioridade nesse esforço de catequese. A Obra Missionária Cigana, fundada em Salvador pelo pastor Eraldo Alves dos Santos, já batizou - sempre por imersão, como manda a liturgia - quatro ciganos, os primeiros remanescentes dessa raça convertidos ao pentecostalismo na América do Sul. "Ao todo já contatamos uns 1.000 ciganos", calcula o pastor. Mais: até o fim do ano será lançada urna ofensiva destinada a "levar os ensinamentos de Jesus" a ciganos de Alagoas, Sergipe, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.
Essa ofensiva certamente recorrerá a programas de rádio, hoje o mais poderoso instrumento de evangelização usado pelos pentecostais. Há mais de 200 programas convencionais - em que um pastor reza e põe no ar "testemunhos" de curas - em pelo menos 100 emissoras de rádio de todo o Brasil. Mas começam a ser inovados, como já acontece na Rádio Continental do Recife. Em vez de sucessos do momento, a parte musical compõe-se de salmos, solos de harpa ou piano, hinos religiosos de cantores obscuros. Enfim, patrocinadores do gênero não costumam figurar na programação normal. Assim, fabricantes de cigarros e bebidas cedem espaço a patrocinadores com nomes tão evangélicos quanto os artigos que vendem: "A Trombeta de Sião", "Galeria Brilho Celeste" ou "Aurora do Céu".
Visões e profecias - O investimento que mais dividendos rende aos pentecostais, entretanto, é a doutrina da cura peIa fé. Algumas seitas, como a Igreja Deus É Amor, liderada pelo missionário David Miranda - "missionário" é o nome dado ao pastor que cria uma seita -, denunciam com espalhafato a possibilidade de curas divinas. Logo à entrada do templo da sede nacional da Igreja Deus É Amor, em São Paulo, há uma parede ornamentada por centenas de muletas e aparelhos ortopédicos.
Em todo culto pentecostal, há sempre um horário reservado aos chamados "testemunhos": qualquer fiel pode agarrar o microfone e relatar curas maravilhosas, visões e até profecias. "As pessoas que vêm aqui saram, engordam, progridem na vida, pagam mais comida para os outros", diz o garçom Manoel Nino Sobrinho, adepto da Igreja Deus É Amor, no Rio de Janeiro. Para o crente, a cura pela fé é algo tão singelo quanto reduzir uma dor de cabeça com a ingestão de uma aspirina.
Em 1974, a Igreja Deus É Amor preparou a inauguração de seu primeiro templo em Curitiba anunciando pela Rádio Marumby, a cada 15 minutos, "a falência dos hospitais de Curitiba após a nossa chegada". Naturalmente, nenhum hospital fechou por falta de pacientes; o que houve foi um áspero atrito com o Conselho Regional de Medicina e o arcebispo católico de Curitiba. Os crentes, na verdade, votam uma pesada desconfiança à ciência médica. Em junho passado, o pastor Luís Carlos Saladar, da Igreja Independente, foi expulso da Santa Casa de Misericórdia de Livramento, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, depois de pilhado na tentativa de convencer uma paciente a abandonar o hospital e recorrer ao "pronto-socorro do Espírito Santo".
Desencanto com o Concílio - A Igreja Católica acompanha com atenção e certa inquietude a escalada do pentecostalismo - uma cópia da pesquisa de Rolim, por exemplo, estacionou recentemente na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília - também porque, ao contrário dos protestantes tradicionais, a maioria das seitas pentecostais quer distância do ecumenismo vaticano. "O movimento pentecostal tem sido objeto de discussões em nossas assembléias-, informa dom Avelar Brandão Vilela, cardeal-arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. O que mais intriga a CNBB é o fato de um número crescente de brasileiros, oriundos principalmente das classes menos favorecidas, entregar-se a seitas que considera à margem da realidade política, social e econômica do país.
"Os pentecostais afirmam que não é o homem que transforma a sociedade", diz Rolim. "Para eles, Deus é quem age no mundo. A sociedade se transformará se cada um se entregar a Jesus Cristo." Rolim detectou entre os católicos convertidos ao pentecostalismo um certo desencanto com a tendência que levou a Igreja Católica a colocar em segundo plano, depois do Concilio Vaticano II, a devoção aos santos, às velas, às procissões, enfim, alguns dos mais antigos símbolos da religiosidade popular. "O pentecostalismo supre essa ausência porque mexe com o lado emocional dos fiéis", constata Rolim.
Em 1976, o falecido professor Douglas Teixeira Monteiro, da Universidade de São Paulo, observou que a Igreja Católica enfrentava "uma situação de mercado onde tem que disputar fiéis em condições de igualdade. às vezes até de inferioridade, notadamente nos grandes centros urbanos". Os crentes, todavia, encaram com naturalidade o milagre da multiplicação dos fiéis. "A expansão pentecostal é um dos muitos sinais de que estamos nos aproximando do fim do mundo", interpreta o pastor Adão Garcia, da Igreja Evangélica Pentecostal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. "A Igreja Católica esqueceu a assistência espiritual."
Obediência à autoridade - É certamente um exagero deduzir que a Igreja Católica perde fiéis apenas porque se dessacraliza. Mas é incontestável que, num momento de crescente polarização política de bispos e padres, os pentecostais se multiplicam oferecendo exclusivamente as vantagens da vida eterna. A opção da Igreja Católica pelos pobres terá certamente reforçado a fé em grandes contingentes de praticantes da classe média. Mas, para muitos pobres, essa opção só adquire contornos práticos se lhes
dá vantagens materiais ou espirituais. É aí que a dessacralização católica, independente de seu conteúdo, torna fértil o campo dos pentecostais, pois o fato de um bispo defender os pobres não é suficiente para torná-los menos pobres. O pastor, ao contrário, oferece exclusivamente o reino dos céus, permitindo aos pobres pensarem que o dia de sua riqueza, mesmo em outra vida, está mais próximo.
O professor Áureo Bispo dos Santos, da Universidade Federal da Bahia, lembra que os pentecostais são historicamente obedientes à autoridade, seja qual for a ideologia dos detentores do poder. "Aceitamos poderes constituídos como divinos e não há contestação, apenas obediência de sua parte", diz Santos. De fato, até hoje nenhuma dessas seitas teve qualquer problema de natureza política com o governo brasileiro. Ao contrário: no Pará, após os últimos choques entre comunidades eclesiais de base e sacerdotes católicos com o governo, pastores da Igreja Assembléia de Deus têm aceitado de bom grado substituir padres cerimônias oficiais e em bênçãos a novas obras públicas.
O sucesso alcançado pelo modelo de evangelização pentecostal é tão evidente que já começa a influenciar algumas igrejas batistas e presbiterianas - e mesmo a Igreja Católica. Neste último caso, o modelo crente influencia sobretudo o Movimento de Renovação Carismática, surgido no começo da década de 60 na Universidade Católica de Notre Dame, nos Estados Unidos. Os "carismáticos", ou "pentecostais católicos", pregam "a renovação do uso dos carismas do Espírito Santo. Ao menos por enquanto, a hierarquia católica não os condenou. Os carismáticos começam a atuar em Campinas, São Paulo, sob a liderança do jesuíta Harold Rahm. Essa influência do pentecostalismo sobre outras religiões é ainda incipiente. Mas configura um indicador da força de uma igreja que, somadas todas as seitas nela incluídas, só é menor que a católica - e promete continuar crescendo.
fonte:http://veja.abril.com.br/arquivo_veja/capa_07101981.shtml
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