15 de agosto de 2009

Ser Assembleiano…


Marcelo Lemos

Eu sempre soube, de ouvir falar, que tradicional não gosta muito de pentecostal. Igualmente, sempre tive conhecimento, por experiência, que pentecostal não gosta muito de tradicional. Estou generalizando, evidentemente. Então, é com muita alegria que recebo notícias de cristãos carismáticos que se aproximam da teologia reformada, e de crentes tradicionais que se abrem ao diálogo com os ‘pentecas’, outrora tidos como a escória do protestantismo pelas elites religiosas, sociais, econômicas…

Não é incomum que eu receba conselhos no sentido de deixar a comunhão assembleiana. São irmãos em cristo que me falam de como o pentecostalismo está saturado de excessos emocionais, e até místicos; de como o pentecostalismo se aliou ferinamente a soterologia arminiana, e a uma escatológica fictícia. E, cá entre nós, preciso ser honesto e reconhecer que diversas vezes já desejei, e até tentei, abandonar o barco…

Por qual razão não o fiz? Humanamente falando eu poderia listar diversos motivos. O principal deles é que acredito em reforma; mas que isso, acredito no poder da Palavra de Cristo. Não pretendo ser um revolucionário dentro do pentecostalismo, ou desta ou daquela Igreja. Não quero mudar as coisas numa noite! Antes, quero pregar a palavra, e por ela, trazer cativo “todo o entendimento à obediência de Cristo” (II Cor. 10.5).

Como se faz isso? Estou tentando aprender! Todavia, constantemente tenho contemplado os frutos da fé bíblica em ação! Creio que até os mais preconceituosos reformados se surpreenderiam se passagens alguns minutos com alguns pentecostais que eu conheço. Pouco a pouco, a fé reformada está invadindo o arraial pentecostal e assembleiano. E estou convencido que nós, reformados, possuímos, teologicamente falando, a única tábua de salvação para a crise que parece se anunciar no horizonte do pentecostalismo…

Eu bem poderia tornar este artigo numa convocação aos assembleianos e pentecostais, convidando-os a conhecerem os pilares do pensamento reformado. Mas, pretendo justamente o oposto: explicar a quem possa interessar, aqueles que considero os elementos mais fascinantes da espiritualidade assembleiana. Em outras palavras, quero escrever sobre os bons motivos de ser um cristão reformado… e permanecer assembleiano!

FERVOR

Há uma intensidade na liturgia assembleiana que é maravilhosa. Certamente me lembrarão dos excessos existentes. Também os conheço. Todavia, é irracional destruir todos os carros, só porque o Zé da Esquina não sabe dirigir. Para o pentecostal, o Espírito Santo não é apenas uma “doutrina” fundamental do cristianismo. O Espírito Santo é uma pessoa, real, e presente na Igreja e na vida de cada membro do Corpo de Cristo.

Tenho observado que para muitos tradicionais, os grandes mover do Espírito na História deixaram saudades. Porém, a maioria deles não consegue ver, nem buscar, a atuação do Espírito hoje. Isso é estranho demais! É como se a ‘veracidade’ de um mover espiritual fosse santificado pela passagem do tempo! Ontem? Sim! Hoje? Não!

Alguns dirão que exagero na critica. Espero que realmente não esteja comigo a razão sobre este ponto. Porém, tenho visto coisas que beiram ao ridículo. Por exemplo, recentemente alguns reformados caíram na alma da Igreja Presbiteriana do Brasil. Qual o motivo? Simples: a referida Igreja manifestou apoio ao projeto Minha Esperança Brasil. Foi a gota d’água! Choveu acusações de que a IPB estaria abraçando o arminianismo!

Pessoalmente não apoio tal ministério, nem sua doutrina; porém, incentivei o mesmo, da maneira que pude. Por qual razão? O objetivo era anunciar a Cristo. Nisto, não há arminianos, nem calvinistas. Todos são cristãos testemunhando Jesus como Caminho, Verdade e Vida. Infelizmente, dos dois lados da ‘guerra’ existem aqueles que, por sua atitude sectária, parece crer que os demais não sejam pessoas salvas. Isso não é ser reformado – não era essa a atitude que Calvino demonstra nas Institutas, por exemplo. Ser reformado não é ser sectário, é ser um reformador!

Um outro exemplo diz respeito a Hernandes Dias Lopes. Até onde sei este estimado pastor é um cristão reformado, e aceita todos os cinco pontos da ‘Tulip’. Mas, ‘coitado’ (!), comete o terrível pecado de ser um evangelista… Então, em diversas comunidades do Orkut, chove imprecações contra um irmão em Cristo! Ora, e desde quando ‘evangelismo’ é coisa de arminiano, e contrário a fé reformada?

Há sempre o perigo de falarmos do poder do Espírito, da atuação do Espírito, e, entretanto, na hora H, ficarmos apenas no discurso. É verdade, admito, que em muitos casos o pentecostalismo tem um conhecimento teológico precário, mas os tradicionais podem aprender muito com eles quanto a confiar na atuação do Deus Triuno, não apenas no passado, mas hoje, agora! E a liturgia e o trabalho assembleiano é um testemunho vivo desta fé.

LIBERDADE

Acredito que pouca gente respeita tanto o principio reformado do ‘sacerdócio universal dos crentes’ quanto o pentecostalismo. Outra vez, desejo estar exagerando. Na liturgia assembleiana clássica, acredita-se que a ‘Vox Dei’ esteja disponível a qualquer um dos seus servos, e não apenas ao ministro ordenado. Aliás, normalmente o assembleianismo desconhece os conceitos clássicos sobre “ministro” e “leigo”. Todos sãos “vasos” a serem utilizados pelo Senhor.

E engana-se quem pensa que estou falando de “profecias”. Estou referindo-me a todos os aspectos da liturgia. É verdade que ainda precisamos caminhar bastante no que diz respeito a “ordem e decência”; contudo, pouca gente leva tão a sério quanto nós a ordem de Paulo sobre “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para a edificação” (I Cor. 14.26).

Já fui a diversos cultos ‘tradicionais’ e nunca vi este mandamento ser levado a sério! Normalmente há um dirigente de culto, um dirigente de louvor, e um pregador ao final.

Na liturgia assembleiana a coisa é diferente. Todos podem falar, cantar e até pregar. Não existem clérigos, nem existem leigos. Somos todos sacerdotes de Cristo.

Para os meus irmãos assembleianos fica um alerta: não permitam que lobos tirem tal liberdade de vocês. Estou pensando agora nos conceitos neopentecostais sobre “cobertura espiritual”, e outros abusos eclesiásticos, que ameaçam várias de nossas Igrejas e ministérios. Meus queridos, historicamente jamais aceitamos que qualquer pessoa fosse “maior” ou “especial” – e não podemos abrir mão de nossa liberdade agora!

E uma vez mais percebo que os cristãos, reformados e carismáticos, podem aprender uns com os outros.

SERVIÇO


Recentemente me mudei para um determinado bairro aqui da capital paulista. Tendo decidido encontrar uma igreja reformada para visitar (trata-se de algo que gosto de fazer), não tive nenhuma surpresa ao descobrir que não havia nenhuma a menos de 40 minutos da minha casa. Isso jamais acontecerá a um assembleiano; a menos que ele se mude para onde Judas perdeu as meias!

Alguns dirão que é impossível que as igrejas tradicionais cresçam e mantenham a hegemonia doutrinária. Penso diferente. Ora, as Assembléias de Deus possuem Igrejas em praticamente todos os bairros, e a maioria de suas congregações é dirigida por obreiros sem nenhuma formação teológica, ou com apenas algum curso básico de teologia. Mesmo assim, as Assembléias de Deus se mantém muito unidas quanto aos seus princípios.

Alguns exemplos que posso indicar de memória: Assembléia de Deus – Ministério do Belém; Assembléia de Deus – Ministério São Bernardo; Assembléia de Deus – Ministério Belo Horizonte (Missão); enfim. Só em São Bernardo do Campo o Ministério do Belém possui algo perto de 45 congregações. Nesta mesma cidade, o Ministério São Bernardo, atualmente dirigida pelo pastor Tarciso, que foi diretor do Seminário onde iniciei meus estudos teológicos, tem mais de 150 congregações! E mesmo assim, são ministérios unidos, e contam grande homogenia interna quando a costume e doutrinas! E são independentes um do outro… Cada ministério tem sua Sede, alguns tem até convenções próprias, etc.

Um outro exemplo que posso citar de cabeça vem do Campo de São Mateus (CNM). No último fim de semana, 01,02/08, foram recebidos, por meio do batismo, mais 108 novos membros. Este já é o oitavo batismo realizado pelas Igrejas filiadas a sede da Mateo Bei em 2009.

Não parece haver escapatória aqui. Ou os cristãos reformados precisam classificar estas pessoas como “não salvas”; ou então, precisam admitir que estão trabalhando menos do que poderiam. A luz do que a História nos ensina, é muito mais seguro concluirmos que boa parte dos reformados de hoje não está alinhada com uma das maiores ‘paixões’ do calvinismo histórico: a evangelização!

Alguém deve estar pensando quem me esqueço dos problemas que o modelo assembleiano provoca. Também tenho consciência deles. E não estou propondo que o modelo assembleiano seja o certo, nem o ideal. Estou apenas tentando ilustrar o fato de que a fé reformada poderia estar muito mais inserida na nossa sociedade, mesmo que para isso fosse preciso colocar os ‘leigos’ nas ruas, avenidas, morros e favelas!

Neste sentido, tenho orgulho de ser assembleiano. Quantas vezes preguei em Igrejas localizadas em morros tão mal iluminados que, na volta para casa, pedíamos para ser acompanhados por algum irmão da Igreja! E aquelas vezes que preguei em favelas nas quais era preciso pedir autorização do ‘chefe’? E as vezes que preguei no interior, tendo como audiência, inclusive, alguns bois e alguns gansos?

Há! Que saudades temos, minhas esposa e eu, das congregações do Lajedo e do Mirante! E a congregação do Novo Arão Reis? Que história maravilhosa a de vocês, meus amados! – um pequeno grupo de jovens que decide evangelizar uma favela, ganha um morador para cristo, começam algumas reuniões, e hoje, temos uma nova Igreja! Ria-se quem quiser, mas só de escrever este parágrafo as lágrimas se aproximam dos olhos!

Concluo reafirmando ter plena consciência dos erros e dos desafios que estão a nossa porta, assembleianos. E reafirmando a minha convicção no poder da Proclamação do Evangelho. Quem sabe, num futuro próximo, eu escreva sobre aquela que é a Assembléia de Deus dos meus sonhos…

Paz e bem.

fonte:http://olharreformado.wordpress.com/2009/08/04/ser-assembleiano/

9 comentários:

  1. Indubitavelmente incrível essas palavras...
    Pensamentos do meu coração se expuseram em palavras através deste postagem...
    Creio que existam diversos pontos ditos errôneos que perpassam e muitas das vezes adentra na Assembleia de Deus; e isso, digo, conhecendo as doutrinas e liturgia reformada, e desejando que, alguns pontos litúrgicos e doutrinários fizessem parte da realidade assembleiana.
    Em visita à Igrejas Tradicionais, percebo as diferenças que existem, e não posso omitir, são diferenças que me fazem emudecer, desejando que aquela diferença, se tornasse igualdade no seio assembleiano. Sinto-me angustiado e muito triste, em perceber as mudanças que aconteceram na Assembleia de Deus; por outro lado, me sinto alegre, porque, através das verdades que pude ler aqui, compreendo que, por mais refutados que sejamos, mantemos em nosso meio, o ardor da presença do Altíssimo, e uma ortodoxia incontestável!
    Poderia publicar isto em meu blog, com sua permissão, mas não o farei em respeito ao sentimentalismo que transbordou o expressionismo nesta postagem!
    Compreendo que estas palavras não foram um mero expressionismo de idéias, mas sim, igualmente a mim, um desabafo de um coração dito assembleiano;
    Que Deus em Cristo te abençoe, pois eu, através desta, já me sinto abençoado!

    Graça e Paz..

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  2. Amado,

    Além de assembleianos, há outros pentecostais reformados na teologia. Meu caso, como membro da Igreja O Brasil Para Cristo.

    Não sei porque termos Palavra ou Poder quando podemos ter Palavra e Poder.

    Em Cristo,

    Clóvis

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  3. - Peço que à todos, não desprese o dom que há em vocês; tenho certeza que todos tantos que pela maravilhosa graça compreenderam a Teologia Reformada e as Doutrinas da Graça, estão chorando, gemendo pela cituação das assembléias de Deus. Mas, por mais que eles ["o clero todo poderoso"], tente nos aprisonar, digo como Paulo: a Palavra não esta presa; que possamos pela providência agirmos e combater o falso evangelho que pregam em nossas igrejas as assembléia de Deus....

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  4. Na minha humilde esperiencia com o meu Deus.. Inclusive dentro da assémbléia "normal". Posso afirmar que o Senhor está presente.. e posso afirmar tbm, que nós assembléianos somos inteligente e tementes o suficiente para fazer TUDO conforme a vontade de Deus. E até hoje, o Deus que servimos sempre se fez presente em TUDO em nosso ministério. E entrando na questão de usos e costumes da igreja(pq é o q o mundo se escandaliza), posso dizer que só serve pra nos ajudar a disprendermos mais das coisas mundanas e sermos de fato deiferentes tbm fisicamente, pq queremos pq temos q nos livrar da aparência do mal.(bíblico)E tneho certeza que o Deus quem servimos se achasse exagero, naõ seria o Deus vivo que vemos entre nós. Acho que no dia em que a igreja católica mudar seus costumes jogue sua placa pq nao será mais igreja católica. No dia em que a assembléia fizer o emmso nao será mais assembléia, batista e etc.. acho que somos membros de um corpo só. E é perda de tempo descutirmos pois o mistério é de Deus. Se ELe permite, Ele sabe de todas as coisas. Por isso, senti-se bem em uma igreja?? FIQUE! senti-se mal, SAIA!! A questão ja não seria a igreja e sim vc!!!! Agora achar q pode mudar algo que não faz mal a ninguém, é um absurdo.. Falo mais ou menos como Deus disse a Pedro quando ele achou fortes suas palavras, suas disciplinas: pode ir se quer.. Enfim, não somos obrigados a nada, mas uma coisa eu sei, ninguém pode mudar a essencia de nada.. Eu não corcordo com muitas coisas da igreja bola de neve, mas jamais iria querer sair da minha, entrar lá, e tentar modifica-la de acordo com meus principios, memso q sejam bíblicos.. Temos livre arbítrio, o q posso fazer é falar da palavra de Deus, e quem converce é o espirito de Deus!!

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  6. A terminologia "Pentecostal" e "reformado" é somente para diferenciar as teologias, ou porque o pentecostal não é reformado?
    A teologia reformada defende o calvinismo, mas o pentecostal dirá que Lutero não se referiu à eleição em suas 95 teses. Se o pentecostal insistir nesse argumento então ele terá uma decepção, pois as teses são mais católicas romanas do que reformadas. Além do mais, depois da defesa dessas teses, Lutero fundamentou seus estudos teológicos na doutrina da graça em pleno acordo com a eleição/predestinação. Se esse meu argumento está correto, então aqui está comprovado que a diferença de terminologia não é para apenas diferenciar divergências teológicas, mas para comprovar que o pentecostal não é literalmente reformado. Isso tem base, pois os pentecostais, infelizmente são tão arminianos quantos os católicos romanos.

    Pr Paulo Gonçalves
    Assembleia de Deus em Seropédica
    paulo_clarineta@oi.com.br

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  7. Graça e paz!
    Eu sou presbiteriano e reformado e vejo com alegria amados irmãos da Igreja Ass. de Deus aderirem a Fé Reformada, segundo alguem da Ass. de Deus me disse, não sei se procede, que osa fundadores em Belém do Pará eram pentecostais reformados.

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  8. Me informem se já existem aqui em Salvador-Ba uma Assembleia de Deus reformada.
    email: robsoncleito@yahoo.com.br
    Graça e Paz!

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Obrigado pelo comentário, agradeço a visita!!!!!!!